Estou deprimida...profundamente deprimida...não sei como descreverão os psicólogos e os psiquiatras o meu estado actual, mas para mim estou deprimida...esgotei.
Só me apetece estar em silêncio, envolta pela segurança da escuridão e da solidão...
Analisem como quiserem, mas é assim que quero estar. Por mais que o tente explicar aos meus amigos, parece que falo para estranhos que não o percebem. As pessoas têm necessidade de intervir quando sentem que os entes queridos não estão bem, mas por mais bem intencionadas que sejam, não percebem que é uma intervenção forçada, como as daquela série os "Irmãos e irmãs", que Tem uma mãe que passa a vida a viver para os filhos e para a família, e os irmãos a interferir e a invadir a privacidade uns dos outros...
Por mais que goste da série, a mim irrita-me solenemente esse tipo de comportamento.
Se eu digo que não me apetece falar, respeitem-me...se eu digo que hoje não estou cá, respeitem-me. Por muito que custe...é egoísmo não perceber que há viagens que temos que fazer sozinhos, no nosso interior...
"E então, se necessitas de estar sozinha, porque escreves a uma escala global?", perguntam vós e muito bem...
Porque já não sei mais como gerir isto, e como não consigo gritar, escrevo. Escrevo para manter a minha sanidade, porque estou cansada de explicar sistematicamente isto mesmo a quem me rodeia.
No outro dia, eu li algo de Chico Buarque, fantástico, a propósito, sobre a solidão...e que no fim do texto todo dizia que solidão é perdermo-nos de nós próprios...
E é isso mesmo.
Eu perdi-me se mim própria e não me consigo encontrar.
Não me dêem palavras de inspiração, nem me façam festas na cabeça a dizer que vai ficar tudo bem...
Esta é a minha maior viagem, é o meu Everest...e eu não estou a conseguir lá chegar. Preciso de espaço, preciso de tempo, preciso de mim...
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domingo, 21 de fevereiro de 2010
Desabafo...
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Manuela Ralha
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Protesto
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
E como se leva?
Desde que dei a entrevista, que me tenho lembrado de muita coisa que disse e que não saiu publicada. Também em 2 horas de entrevista teria que ficar muita coisa pelo caminho.
Perguntava-me a Ana, a jornalista que me fez a entrevista, e como se leva?
Eu respondi que não se leva, vai-se levando.
Tal como vinha na capa do jornal, eu disse e digo que naquele momento, naquele acidente eu morri e renasci...
E porquê falar nisto agora? Porque muita gente se indigna quando eu digo que morri...porque muita gente continua sem perceber que não é uma questão de bravura nem de coragem, mas sim de sobrevivência...e porque muita gente não sabe sequer como ultrapassar porque ninguém nos diz como nem ensina. Foi por isso que decidi expor-me, é por isso que escrevo, pela vontade de ajudar outros como eu a "andar", a seguir para a frente, e ao mesmo tempo ajudar os "cegos" sociais a ver como vive a outra parte, aquela que não corre, não sente a areia nos pés, não distingue a luz das trevas, não conhece senão o som do silêncio.
Não quero ter a veleidade de saber tudo, nem de ter soluções, apenas testemunhar e com o meu testemunho poder tocar os outros
E posta toda esta introdução chata, voltamos ao assunto inicial.
E como se leva?
Não se leva, nem se ultrapassa. Vive-se um dia a seguir ao outro. Tal como numa morte, o acidente é o momento. Esse momento, em que perdemos um ente querido, não passa disso, do momento. O complicado não é aí, é recomeçar a viver. Fazer o luto. Eu costumo dizer muitas vezes que um acidente como o meu, que nos transforma noutra pessoa, deve ser vista como uma morte. E para seguirmos em frente temos que fazer também o luto. O processo de luto não é algo linear, muito pelo contrário, envolve uma série de etapas ou componentes sequenciais, que lhe estão inerentes. Choque – reacção inicial à perda do objecto (pessoa ou coisa significativa), na qual o sujeito fica “atordoado” com o acontecido; Negação – Mecanismo de defesa que a própria pessoa utiliza de forma inconsciente e que a leva a não acreditar ou a não querer acreditar no que aconteceu. Geralmente a pessoa usa expressões do tipo “Eu não acredito que isto me tenha acontecido”, “não pode ser possível”; Depressão – etapa em que a pessoa já teve alguma tomada de consciência do que aconteceu e por isso, sente-se frequentemente triste, chora intensamente, não tem prazer nas actividades, pensa recorrentemente acerca da morte e no ente falecido, isola-se. Estes sintomas se forem muito intensos e persistirem no tempo, podem ser sinal de uma perturbação de humor; Culpa – é um sentimento muito comum. As pessoas começam a pensar em tudo o que poderiam ter dito ou feito para impedir essa morte. Por outro lado, a culpa também como surgir em consequência do alívio pela morte de alguém que nos era muito querido mas que estava a sofrer. Por exemplo, morte de uma pessoa com uma doença terminal que estava num estado de sofrimento intenso. Ansiedade – está associada a um período de agitação e ânsia pelo que foi perdido. O sujeito muitas vezes deseja encontrar a pessoa falecida, mesmo sabendo que é impossível e pelo que, não consegue relaxar; Agressividade – em alguns casos, o indivíduo revolta-se contra a perda, isto é, sente-se muito zangado e irritado por estar a viver aquela situação. Este sentimento pode ser virado para si mesmo ou para os outros (por exemplo, para os médicos que não conseguiram salvar a pessoa amada, para Deus ou para amigos ou outras pessoas significativas);Reintegração –é geralmente a última etapa do processo, na qual a pessoa volta à “vida normal”.
Fui mais chata a descrever as fases do processo de luto, porque muita gente quando se fala em fazer o luto não sabe exactamente do que se trata.
Mas é isto. fazer o luto do que morreu, do que fomos. Porque não se iludam os mais crédulos, não mais voltamos a ser os mesmos. Eu não sou a mesma. Nem nunca o voltarei a ser.
Tal como numa morte, não é o momento o mais difícil. É o dia seguinte. E o outro. E o outro a seguir...e todos os dias do resto da nossa vida. O mais difícil é o aprender a viver sem uma parte de nós, sem um ente querido. è a saudade, o desespero, a falta que sentimos...
No meu caso, as saudades de mim...daquilo que fui e que não volto a ser.
E tal como num qualquer outro luto, temos que seguir em frente. E isso é de facto o mias difícil Ninguém nos diz como, nem nos prepara, por mais fisioterapia e terapia ocupacional que se faça.
E como se leva? Não leva.
E como se ultrapassa? Não ultrapassa.
Vive-se um dia de cada vez. reaprende-se a viver, tentando conviver com o estranho que nos olha no espelho. Aquele que não conhecemos. Aquilo que nasceu em nosso lugar, e que nos leva a repensar tudo o que passámos a vida a aprender sobre nós próprios.
è uma viagem nova e constante ao interior de cada um de nós. é termos a capacidade de nos virar do avesso. E sobretudo termos a consciência que não se ultrapassa. Nunca.
Se fiz o meu luto? Não, não fiz...
Mas sei que mais cedo ou mais tarde o terei que fazer.
Perguntava-me a Ana, a jornalista que me fez a entrevista, e como se leva?
Eu respondi que não se leva, vai-se levando.
Tal como vinha na capa do jornal, eu disse e digo que naquele momento, naquele acidente eu morri e renasci...
E porquê falar nisto agora? Porque muita gente se indigna quando eu digo que morri...porque muita gente continua sem perceber que não é uma questão de bravura nem de coragem, mas sim de sobrevivência...e porque muita gente não sabe sequer como ultrapassar porque ninguém nos diz como nem ensina. Foi por isso que decidi expor-me, é por isso que escrevo, pela vontade de ajudar outros como eu a "andar", a seguir para a frente, e ao mesmo tempo ajudar os "cegos" sociais a ver como vive a outra parte, aquela que não corre, não sente a areia nos pés, não distingue a luz das trevas, não conhece senão o som do silêncio.
Não quero ter a veleidade de saber tudo, nem de ter soluções, apenas testemunhar e com o meu testemunho poder tocar os outros
E posta toda esta introdução chata, voltamos ao assunto inicial.
E como se leva?
Não se leva, nem se ultrapassa. Vive-se um dia a seguir ao outro. Tal como numa morte, o acidente é o momento. Esse momento, em que perdemos um ente querido, não passa disso, do momento. O complicado não é aí, é recomeçar a viver. Fazer o luto. Eu costumo dizer muitas vezes que um acidente como o meu, que nos transforma noutra pessoa, deve ser vista como uma morte. E para seguirmos em frente temos que fazer também o luto. O processo de luto não é algo linear, muito pelo contrário, envolve uma série de etapas ou componentes sequenciais, que lhe estão inerentes. Choque – reacção inicial à perda do objecto (pessoa ou coisa significativa), na qual o sujeito fica “atordoado” com o acontecido; Negação – Mecanismo de defesa que a própria pessoa utiliza de forma inconsciente e que a leva a não acreditar ou a não querer acreditar no que aconteceu. Geralmente a pessoa usa expressões do tipo “Eu não acredito que isto me tenha acontecido”, “não pode ser possível”; Depressão – etapa em que a pessoa já teve alguma tomada de consciência do que aconteceu e por isso, sente-se frequentemente triste, chora intensamente, não tem prazer nas actividades, pensa recorrentemente acerca da morte e no ente falecido, isola-se. Estes sintomas se forem muito intensos e persistirem no tempo, podem ser sinal de uma perturbação de humor; Culpa – é um sentimento muito comum. As pessoas começam a pensar em tudo o que poderiam ter dito ou feito para impedir essa morte. Por outro lado, a culpa também como surgir em consequência do alívio pela morte de alguém que nos era muito querido mas que estava a sofrer. Por exemplo, morte de uma pessoa com uma doença terminal que estava num estado de sofrimento intenso. Ansiedade – está associada a um período de agitação e ânsia pelo que foi perdido. O sujeito muitas vezes deseja encontrar a pessoa falecida, mesmo sabendo que é impossível e pelo que, não consegue relaxar; Agressividade – em alguns casos, o indivíduo revolta-se contra a perda, isto é, sente-se muito zangado e irritado por estar a viver aquela situação. Este sentimento pode ser virado para si mesmo ou para os outros (por exemplo, para os médicos que não conseguiram salvar a pessoa amada, para Deus ou para amigos ou outras pessoas significativas);Reintegração –é geralmente a última etapa do processo, na qual a pessoa volta à “vida normal”.
Fui mais chata a descrever as fases do processo de luto, porque muita gente quando se fala em fazer o luto não sabe exactamente do que se trata.
Mas é isto. fazer o luto do que morreu, do que fomos. Porque não se iludam os mais crédulos, não mais voltamos a ser os mesmos. Eu não sou a mesma. Nem nunca o voltarei a ser.
Tal como numa morte, não é o momento o mais difícil. É o dia seguinte. E o outro. E o outro a seguir...e todos os dias do resto da nossa vida. O mais difícil é o aprender a viver sem uma parte de nós, sem um ente querido. è a saudade, o desespero, a falta que sentimos...
No meu caso, as saudades de mim...daquilo que fui e que não volto a ser.
E tal como num qualquer outro luto, temos que seguir em frente. E isso é de facto o mias difícil Ninguém nos diz como, nem nos prepara, por mais fisioterapia e terapia ocupacional que se faça.
E como se leva? Não leva.
E como se ultrapassa? Não ultrapassa.
Vive-se um dia de cada vez. reaprende-se a viver, tentando conviver com o estranho que nos olha no espelho. Aquele que não conhecemos. Aquilo que nasceu em nosso lugar, e que nos leva a repensar tudo o que passámos a vida a aprender sobre nós próprios.
è uma viagem nova e constante ao interior de cada um de nós. é termos a capacidade de nos virar do avesso. E sobretudo termos a consciência que não se ultrapassa. Nunca.
Se fiz o meu luto? Não, não fiz...
Mas sei que mais cedo ou mais tarde o terei que fazer.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Entrevista ao Jornal Vida Ribatejana em 6.11.2009
Transcrevo aqui a entrevista que dei ao semanário Vida Ribatejana, com texto de Ana Filipa de Sousa e fotos de Pedro Castelo.
" - O tempo tem conseguido apagar o fatídico dia de Verão em que a sua vida mudou?"
O acidente foi à cinco anos. Estávamos a 14 de Junho e estava de saída para um dia normal de trabalho.Na altura dava aulas na Martinho Vaz de Castelo Branco, na Póvoa de Sta Iria, estava a fazer mestrado, trabalhava na editora discográfica Clave de Soft e a par disso, como fiz o curso de canto no Conservatório e também de Direcção Coral e técnica Vocal, também trabalhava nessa área. Dirigia grupos corais e dava aulas de técnica vocal...actividade na minha vida não me faltava. Tinha andado a auxiliar uma colega de Religião e Moral, que ia apresentar umas Marchas Populares na escola e era o dia da exibição.
Estava parada numa fila de trânsito, na estrada que vai para Vialonga, a 100 metros do portão da Central de Cervejas...O Trânsito estava parado, eu estava na fila, apareceu um camião desgovernado, bateu-me e tive o acidente...E não, não se apaga a memória nem se ultrapassa.
"- Na altura percebeu logo a gravidade da situação?"
Quando olhei para o retrovisor e vi o camião percebi que não tinha hipóteses de escapar ao embate...puxei o travão de mão para evitar o embate no carro da frente, e levei com a pancada toda na parte de trás do meu carro. Como sou uma pessoa que reage muito friamente a todas as situações, como na altura estava quente e ainda não sentia dores, tentei perceber quais eram os danos e o que é que se podia fazer...ainda passou um amigo que me perguntou se eu precisava de alguma coisa e eu acenei e disse que estava tudo bem...telefonei para a escola a dizer que tinha sofrido um acidente, e que não ia ser possível estar presente, mas que não era nada de grave. Depois telefonei para o meu marido para lhe perguntar se poderia ir ter comigo, mas que fosse devagar que não era nada de preocupante...acalmei o senhor do camião , que estava a gritar de volta do meu carro...o tempo foi passando, comecei a arrefecer e aí comecei a descompensar...comecei a ter dificuldades em respirar, a ter tonturas, e quando chegaram os bombeiros já estava a entrar em paragem cardio-respiratória...só me lembro de dizer que não conseguia respirar, de terem colocado a máscara de oxigénio, de me taparem com um plástico...ainda me lembro do meu marido chegar, de querer entrar no carro pelo outro lado e de os bombeiros dizerem que iam cortar o carro para me desencarcerarem.
Fui reanimada na ambulância, levada para o hospital de Vila Franca de Xira e quando entrei para a sala de reanimação já estava consciente. Depois de um raio-x e de oito horas nas urgências mandaram-me para casa com Ben-U-ron...como as dores não passavam, eu já não mexia os pés, tinha incontinência urinária e não me sentava, marquei uma consulta para o meu Ortopedista na Clínica de Santo António, em Sacavém. O médico quando me viu mandou-me imediatamente para neurologia...quando o neurologista me observou e viu que eu não tinha qualquer reacção nos membros inferiores, mandou-me para São José imediatamente onde estive internada em SO dois dias. Depois subi para a Unidade Vertebro-medular, onde fiquei internada, estava paraplégica e não havia nada a fazer...
" -O que sentiu nessa altura?"
Tenho tendência a desvalorizar muito as coisas que me acontecem e na altura ainda se colocava a hipótese de ser uma situação passageira...tentei não pensar muito nas consequências, foi a minha fuga para a frente...entretanto, deram-me alta de S. José, mandaram-me para Vila Franca de Xira , o meu hospital de referência para me internar e enviar para Alcoitão. Estive 4 horas na triagem e acabaram por me dar alta e me mandar para casa, algaliada. Nessa altura comecei a ficar preocupada...nem me sentava sequer...mas como nunca perdi tempo com futilidades e nunca tive paciência para aquela coisa do ai,ai , ai e do coitadinha, estava convencida que voltaria a andar...e porque ainda não sabia ao certo o que tinha, tentei levar as coisas para a frente e ser pragmática...a cadeiras de rodas veio emprestada inicialmente pelo centro de saúde, comecei a tentar sentar-me sozinha, vieram mudar-me a algália, o serviço de cuidados continuados de saúde, e da seguradora nem uma palavra porque não tinham feito a participação do acidente...até o auto de ocorrência vinha enganado...entretanto, como até para se ter um acidente é preciso ter sorte, não houve apoio de lado nenhum. Só me apareceu o perito da seguradora passado dois meses depois do acidente, só fui chamada para a primeira consulta da seguradora 3 meses depois e a assistente social da seguradora apareceu em minha casa quase três anos depois...
Tive de pagar a fisioterapia e consultas de urologia privadas, todos aqueles exames que os paraplégicos têm de fazer...tudo do meu bolso. Aprendi a algaliar-me e a colocar cateters sozinha. Isto tudo sem ordenado, porque o meu contrato de trabalho com o ministério da educação terminou a 31 de Agosto e cessaram os vencimentos e os abonos de família...a juntar a tudo o resto tem sido muito complicado. Quando se é homem é tudo muito mais simples, e isto não é uma questão de sexismo...eu tinha( e tenho) dois filhos menores e dois enteados, crianças pequenas na altura que ficaram muito afectadas e era preciso continuar a ser a mesma mãe porque eles espectavam isso mesmo, tinha de continuar a ser a mesma mulher para o meu marido, a mesma filha para os meus pais, a mesma irmã para os meus irmãos senão caíam todos redondos. E percebi que não podia desmoronar, pois cairia toda a estrutura...e tem sido assim, com todas as complicações...
"- Mas ainda foi ao estrangeiro numa tentativa de encontrar respostas, não foi?"
Sim, fui á procura de respostas ao estrangeiro, porque essa é a primeira coisa que se faz quando tomamos noção do que nos aconteceu...Fui a Inglaterra, a Barcelona e já cá fiz uma série de exames, cujos resultados enviei para Cuba e para Israel. Até aí sempre pensámos que seria uma situação passageira, porque só estava paralisada até aos joelhos...ainda andei com um andarilho e umas ortóteses e fazia todo o esforço para andar...só que há 3 anos houve uma regressão brutal que me deixou paralisada até à cintura. Depois de ter feito os exames às minhas custas, e de ter ido a uma série de neurologistas, foi-me dito que tinha uma lesão na medula, feita por uma pancada de chicote, que acontece quando as pessoas levam uma pancada por trás em cheio, e que corro o risco de ficar tetraplégica, porque a lesão é degenerativa...perceber que não há cura nem aqui nem na China foi muito complicado. Aí fui abaixo, revoltei-me, não só por mim, mas por toda a gente. Depois dispus-me a fazer um processo civil à minha conta, porque a seguradora demorou cinco anos a fazer a primeira proposta em termos indmenizatórios. Só o fez recentemente e neste momento está tudo em tribunal...e tudo isto é muito complicado e desgastante porque todo o processo de interiorização das mudanças que uma situação como esta impõe, ainda é passado de uma forma muito solitária em Portugal...
"- Isso significa o quê?"
A minha ida ao tribunal, para a minha primeira audiência do meu processo é um episódio que mostra bem como é que estas coisas ainda se passam no nosso país...pensei que o tribunal tivesse a hombridade de perceber que o autor do processo era paraplégico e mudasse o sítio da audiência, mas não. Quando cheguei tinha aquela escada imensa e eu disse ao meu advogado que ao colo não ia...Todos os deficientes motores sabem que uma das maiores e principais causas de mal estar para nos é sermos transportados ao colo, porque não deveria ser assim. Disse que não entrava, que não subia ao colo, o meu advogado foi colocar a questão ao Oficial de Diligências, que falou com o juiz, que se prontificou a fazer a audiência no passeio, se necessário ...
"- Isso mostra que, apesar de tudo, ainda estamos muito longe do ideal no que toca à eliminação de barreiras?"
Muito longe mesmo...nestes cinco anos tenho-me batido imenso contra a falta de acessibilidades. Porque esta questão tem um peso social muito grande e a verdade é que as pessoas ainda não estão habituadas a ver uma pessoa em cadeira de rodas a tentar ser independente. As aberrações são enormes, rampas sem qualquer utilidade, mobiliário urbano espalhado pelo passeio que, entretanto, não tem largura para as cadeiras de rodas passarem...Depois, há sempre aquela coisa do coitadinho, não nos mexemos, ficamos sozinhos em casa, os amigos desaparecem porque as pessoas não vivem para o sofrimento dos outros...e é por isso que tenho uma postura muito clara. Não me desiludo com as pessoas porque não me chego a iludir. Ficaram os bons amigos, os verdadeiros e a esses agradeço. Quando os que se afastaram me perguntam como estou, respondo que estou paraplégica, mas que isso já sabiam...
"- Ainda não há uma cultura de verdadeiro apoio solidário?"
Para muita gente fazer solidariedade é contribuir com dinheiro no Natal para apoiar uma campanha qualquer, mesmo que no apartamento ao lado viva uma pessoa acamada que só precise apenas e somente de alguém para conversar durante cinco minutos...perante este cenário, ou se tem dinheiro e se paga a um psiquiatra e a um psicólogo ou não se tem e tudo isto, todas as mudanças que isto impõe na nossa vida, são passadas e vividas de uma forma muito solitária...Houve uma altura em que chorava sozinha, chorava muito, depois dizia que não ia a lado nenhum e que não queria sair de casa. Agora digo que quero ir e quando não posso ter acesso, peço o livro de reclamações.
"- É uma postura que se aprende com o tempo?"
Não...é muito complicado. falo com gente que já teve o acidente há 17 anos e pura e simplesmente ainda não passou para esta fase...e conheço gente que depois do acidente casou, teve filhos e vive a sua vida...se temos problemas... temos muitos. Chegar a esta fase, do quero ir, tem a ver com uma viagem interior que tem que ser obrigatóriamente feita. Estes cinco anos serviram-me para isso mesmo...o facto de estar fechada em casa e a minha vida ter mudado radicalmente...no fundo, de ter morrido, porque eu morri há cinco anos. Morri naquele acidente e renasci. Renasceu uma outra pessoa, que muitas vezes não reconheço...é uma viagem interior que se tem que fazer...tudo isto é muito difícil de gerir...até com a família...porque a reacção normal das pessoas à minha volta é perguntarem-me o que devem fazer...e eu fico sem resposta...é muito complicado exteriorizar e gerir tudo isto porque também percebo que há um grande sentimento de impotência por parte das pessoas que me rodeiam e que até chega a ser mais complicado para quem nos rodeia do que própriamente para nós.
"- Como se lida com tudo isso?"
Não se lida, vai-se lidando. É um dia a seguir ao outro, mas tem de haver um corte radical com a vida passada. Fazer o luto e renascer...as pessoas ficam muito irritadas comigo por dizer que morri, mas é a formula para sobreviver sem enlouquecer...do que me serve a mim dizer que tenho saudades de correr na praia ou de sentir a areia quente nos pés, de dançar ou correr, se si que nunca mais volto a andar? Serve-me para ficar sentada a chorar e a lamentar. Claro que tenho momentos maus...mas é preciso enterrar o passado e construir uma nova pessoa. É uma forma de viver...não se leva...porque o acidente é o momento...em que a vida nunca mais volta a ser a mesma. As estatísticas que contabilizam quem morre na estrada esquecem quem ficou paraplégico, tetraplégico, as que ficaram vegetais, as que ficaram completamente sozinhas ou para sempre em lares, porque a família os abandonou, esquecem as famílias que ficam completamente desagregadas.
In" Vida Ribatejana" , ano 92º, nº 4566 de 11 de Novembro de 2009
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Manuela Ralha
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Vida
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Anedotas de um dia-a-dia diferente, parte 2
Isto é tipo Terminator...I'll be back, disse eu, ora aqui estou.
Falei da primeira grande anedota depois do meu acidente, conto-vos agora a segunda...não falando das tristes gargalhadas menores no entretanto.
Após o épico desfecho da minha passagem pelos hospitais, vi-me desamparada e sem solução à vista. Ora eu estava algaliada, não me sentava, e o que iria fazer? A família ideias não tinha...bom, resolvi que o melhor seria o meu marido procurar um fisioterapeuta que fizesse domicílio.
E ele assim fez. Mas eu não tinha meios em casa.
Entretanto "lembrei-me" da algália, até porque o tubo não tinha lá muito bem aspecto e a urina tinha sangue...solicitei os serviços dos Cuidados Continuados de Saúde, grupo a que eu estive na génese, inclusivé fui a imensas reuniões de trabalho e conferências, mas isso agora não interessa nada, e foram eles que me mudaram a algália...
Não podia de facto continuar assim.
Da seguradora nem pio...
Lá pedi eu emprestada uma cadeira de rodas ao Centro de Saúde, pois precisava de começar a fazer fisioterapia...
Mas a novela continuava, porque eu não tinha em minha posse qualquer elemento complementar de diagnóstico.
Bom, resumindo, comecei sozinha a aprender a sentar-me, passei para a fisioterapia, tive que marcar uma consulta privada de urologia porque começava a ser alarmante a situação... e da seguradora nada.
Até que finalmente, quase 3 meses após o acidente fui chamada para uma consulta de ortopedia.
"Ortopedia?" pensei eu...mau, voltou a novela...
Andei enrolada em Ortopedia, até fui a neurocirurgia, mas respostas nada... até que , finalmente, 5 meses depois da 1ª consulta percebi porquê.
Passo a descrever a situação...
Consulta de ortopedia. Médico novo. Hospital privado de Ortopedia de Lisboa.
"Boa tarde". " Boa tarde Doutor".
"Então, estive aqui a estudar o seu ficheiro, e a ler as informações que vieram de S. José e percebi que tem aqui uma coisinha para mim..."
" Para si?" " sim, temos que marcar a cirurgia"...
"Cirurgia'" Eu cada vez mais preocupada , estupefacta até, o meu marido a olhar para mim...
"Sim, segundo o relatório de S. José está na altura de remover os parafusos..."
" Parafusos????? Que parafusos? Ó doutor, eu sei que bato mal, mas deixe-me os parafusos que ainda me restam.." dizia eu ironicamente com um enorme sorriso...
" Mau, mas não tem parafusos na perna?"
" Na perna? Parafusos?"
"Sim , tenho aqui um relatório de uma cirurgia com o seu nome a uma fractura exposta da tíbia"
" MINHA?! Desculpe, só pode ser brincadeira...tem um relatório com o meu nome, vindo de S. José , de uma cirurgia a uma fractura exposta da TÍBIA? mas eu nuca fracturei a tíbia nem osso nenhum no acidente...eu tenho uma lesão medular..."
(nesta altura já tinha feito uma série de exames privados, onde gastei o que tinha e não tinha, para saber o que se passava...)
" Desculpe, mas o relatório que está agrafado à 1ª página do seu processo à 5 meses e que veio de S.José diz que foi internada, tendo-lhe sido diagnosticada uma fractura exposta de tíbia e um traumatismo craniano"...
Pronto, aqui eu já me rebolava a rir, com o meu marido a olhar para mim e para o médico, e o médico muito parvo a olhar para mim...
" Doutor, desculpe, mas como poderá verificar se eu me despir, eu não possuo nenhuma, ouviu bem, nenhuma cicratiz de cirurgia, nem nunca tive, bom se calhar até tive, porque me doi imenso a cabeça e estou desmemoriada, mas nunca fiz nenhum exame à cabeça que permitisse um diagnóstico de traumatismo craniano..."
"O QUÊ????!!! Quer dizer que a Manuela já passou por 5 ou 6 colegas meus e nenhum viu o erro?"
" Não..., respondi eu," embora agora perceba a falta de respostas e os ortopedistas..."
E aqui ele desatou aos berros, literalmente aos gritos, a chamar o auxiliar, a exigir respostas, a chamar nomes aos colegas...
" Olhe, eu peço desculpa...""O doutor não tem nada que pedir desculpa...""Estou tão envergonhado""Ó doutor, por amor de Deus, o doutor não tem a culpa"
"Do que precisa? Consulta de urologia, de neurologia, fisioterapia, o que precisa? Eu passo-lhe tudo, vamos dar-lhe tudo e mais alguma coisa..."
" Ó doutor, não faz mal...""faz, faz, estes gajos vão ver..."
" Bom, dizia eu, Urologia dava jeito porque assim não pagava a consulta, e como deriva do acidente o problema..."
"É já! E Medicina Interna, e neurologia, e neurocirurgia..."
"Ó doutor, eu necessito de fazer um exame de urologia, mas neste quadro até tenho medo que me diagnostiquem um CANCRO NA PRÓSTATA" e ria-me desbragadamente...
" Mas as mulheres não têm próstata..."
"PRECISAMENTE!"
E foi mais uma anedota em todo este processo...e mais uma vez garanto que foi o relato fiel dos acontecimentos...
Falei da primeira grande anedota depois do meu acidente, conto-vos agora a segunda...não falando das tristes gargalhadas menores no entretanto.
Após o épico desfecho da minha passagem pelos hospitais, vi-me desamparada e sem solução à vista. Ora eu estava algaliada, não me sentava, e o que iria fazer? A família ideias não tinha...bom, resolvi que o melhor seria o meu marido procurar um fisioterapeuta que fizesse domicílio.
E ele assim fez. Mas eu não tinha meios em casa.
Entretanto "lembrei-me" da algália, até porque o tubo não tinha lá muito bem aspecto e a urina tinha sangue...solicitei os serviços dos Cuidados Continuados de Saúde, grupo a que eu estive na génese, inclusivé fui a imensas reuniões de trabalho e conferências, mas isso agora não interessa nada, e foram eles que me mudaram a algália...
Não podia de facto continuar assim.
Da seguradora nem pio...
Lá pedi eu emprestada uma cadeira de rodas ao Centro de Saúde, pois precisava de começar a fazer fisioterapia...
Mas a novela continuava, porque eu não tinha em minha posse qualquer elemento complementar de diagnóstico.
Bom, resumindo, comecei sozinha a aprender a sentar-me, passei para a fisioterapia, tive que marcar uma consulta privada de urologia porque começava a ser alarmante a situação... e da seguradora nada.
Até que finalmente, quase 3 meses após o acidente fui chamada para uma consulta de ortopedia.
"Ortopedia?" pensei eu...mau, voltou a novela...
Andei enrolada em Ortopedia, até fui a neurocirurgia, mas respostas nada... até que , finalmente, 5 meses depois da 1ª consulta percebi porquê.
Passo a descrever a situação...
Consulta de ortopedia. Médico novo. Hospital privado de Ortopedia de Lisboa.
"Boa tarde". " Boa tarde Doutor".
"Então, estive aqui a estudar o seu ficheiro, e a ler as informações que vieram de S. José e percebi que tem aqui uma coisinha para mim..."
" Para si?" " sim, temos que marcar a cirurgia"...
"Cirurgia'" Eu cada vez mais preocupada , estupefacta até, o meu marido a olhar para mim...
"Sim, segundo o relatório de S. José está na altura de remover os parafusos..."
" Parafusos????? Que parafusos? Ó doutor, eu sei que bato mal, mas deixe-me os parafusos que ainda me restam.." dizia eu ironicamente com um enorme sorriso...
" Mau, mas não tem parafusos na perna?"
" Na perna? Parafusos?"
"Sim , tenho aqui um relatório de uma cirurgia com o seu nome a uma fractura exposta da tíbia"
" MINHA?! Desculpe, só pode ser brincadeira...tem um relatório com o meu nome, vindo de S. José , de uma cirurgia a uma fractura exposta da TÍBIA? mas eu nuca fracturei a tíbia nem osso nenhum no acidente...eu tenho uma lesão medular..."
(nesta altura já tinha feito uma série de exames privados, onde gastei o que tinha e não tinha, para saber o que se passava...)
" Desculpe, mas o relatório que está agrafado à 1ª página do seu processo à 5 meses e que veio de S.José diz que foi internada, tendo-lhe sido diagnosticada uma fractura exposta de tíbia e um traumatismo craniano"...
Pronto, aqui eu já me rebolava a rir, com o meu marido a olhar para mim e para o médico, e o médico muito parvo a olhar para mim...
" Doutor, desculpe, mas como poderá verificar se eu me despir, eu não possuo nenhuma, ouviu bem, nenhuma cicratiz de cirurgia, nem nunca tive, bom se calhar até tive, porque me doi imenso a cabeça e estou desmemoriada, mas nunca fiz nenhum exame à cabeça que permitisse um diagnóstico de traumatismo craniano..."
"O QUÊ????!!! Quer dizer que a Manuela já passou por 5 ou 6 colegas meus e nenhum viu o erro?"
" Não..., respondi eu," embora agora perceba a falta de respostas e os ortopedistas..."
E aqui ele desatou aos berros, literalmente aos gritos, a chamar o auxiliar, a exigir respostas, a chamar nomes aos colegas...
" Olhe, eu peço desculpa...""O doutor não tem nada que pedir desculpa...""Estou tão envergonhado""Ó doutor, por amor de Deus, o doutor não tem a culpa"
"Do que precisa? Consulta de urologia, de neurologia, fisioterapia, o que precisa? Eu passo-lhe tudo, vamos dar-lhe tudo e mais alguma coisa..."
" Ó doutor, não faz mal...""faz, faz, estes gajos vão ver..."
" Bom, dizia eu, Urologia dava jeito porque assim não pagava a consulta, e como deriva do acidente o problema..."
"É já! E Medicina Interna, e neurologia, e neurocirurgia..."
"Ó doutor, eu necessito de fazer um exame de urologia, mas neste quadro até tenho medo que me diagnostiquem um CANCRO NA PRÓSTATA" e ria-me desbragadamente...
" Mas as mulheres não têm próstata..."
"PRECISAMENTE!"
E foi mais uma anedota em todo este processo...e mais uma vez garanto que foi o relato fiel dos acontecimentos...
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quarta-feira, agosto 19, 2009
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sábado, 8 de agosto de 2009
Vida Independente
Hoje decidi publicar um texto que eu acho fantástico e que simboliza uma declaração de princípios para as pessoas portadoras de deficiência, pelo menos deveria representar...Não podemos continuar a exigir que nos vejam como iguais se nos vitimizarmos...a deficiência não impede de sermos seres humanos completos. Não podemos andar?! Voamos com a nossa imaginação! Não ouvimos o mundo? Vemos as cores maravilhosas do mundo que nos rodeia.
Não vemos? Ouvimos a subtileza de uma obra de Bach...e o canto dos pássaros...
Poderão dizer-me que estou a ser lírica...eu sei bem o que são dificuldades! Mas não é por isso que viro as costas à vida e ao mundo. Não se fechem, não deixem de viver, de respirar...não se enterrem em vida. E façam o favor de tentar ser felizes...
"O que é Vida Independente?
Vida Independente é uma filosofia e um movimento de pessoas com deficiência que trabalham para a auto-determinação, igualdade de oportunidades e respeito por si próprio. Vida Independente não significa que queiramos ser nós a fazer tudo e que não precisamos de ajuda de ninguém ou que queiramos viver isolados. Vida Independente significa que exigimos as mesmas oportunidades e controlo sobre o nosso dia-a-dia que os nossos irmãos, irmãs, vizinhos e amigos, sem deficiência, têm por garantidos. Nós queremos crescer no seio das nossas famílias, frequentar a escola do bairro, trabalhar em empregos adequados à nossa formação e interesses e constituir a nossa própria família.
Visto sermos os melhores peritos nas nossas necessidades, precisamos mostrar as soluções que queremos, precisamos de estar à frente das nossas vidas, pensar e falar por nós próprios – tal como qualquer outra pessoa. Com este fim em vista nós temos de nos apoiar e aprender uns com os outros, organizarmo-nos e trabalharmos por mudanças políticas que conduzam a uma protecção legal dos nossos direitos humanos e cívicos
Nós somos pessoas profundamente comuns partilhando a mesma necessidade de se sentirem incluídas, reconhecidas e amadas.
Enquanto encararmos as nossas incapacidades como tragédias, terão pena de nós.
Enquanto sentirmos vergonha de quem somos, as nossas vidas serão vistas como inúteis.
Enquanto ficarmos em silêncio, serão outras pessoas a dizer-nos o que fazer.
Adolf Ratzka – Independent Living Institute – 2005 "
Vida Independente é uma filosofia e um movimento de pessoas com deficiência que trabalham para a auto-determinação, igualdade de oportunidades e respeito por si próprio. Vida Independente não significa que queiramos ser nós a fazer tudo e que não precisamos de ajuda de ninguém ou que queiramos viver isolados. Vida Independente significa que exigimos as mesmas oportunidades e controlo sobre o nosso dia-a-dia que os nossos irmãos, irmãs, vizinhos e amigos, sem deficiência, têm por garantidos. Nós queremos crescer no seio das nossas famílias, frequentar a escola do bairro, trabalhar em empregos adequados à nossa formação e interesses e constituir a nossa própria família.
Visto sermos os melhores peritos nas nossas necessidades, precisamos mostrar as soluções que queremos, precisamos de estar à frente das nossas vidas, pensar e falar por nós próprios – tal como qualquer outra pessoa. Com este fim em vista nós temos de nos apoiar e aprender uns com os outros, organizarmo-nos e trabalharmos por mudanças políticas que conduzam a uma protecção legal dos nossos direitos humanos e cívicos
Nós somos pessoas profundamente comuns partilhando a mesma necessidade de se sentirem incluídas, reconhecidas e amadas.
Enquanto encararmos as nossas incapacidades como tragédias, terão pena de nós.
Enquanto sentirmos vergonha de quem somos, as nossas vidas serão vistas como inúteis.
Enquanto ficarmos em silêncio, serão outras pessoas a dizer-nos o que fazer.
Adolf Ratzka – Independent Living Institute – 2005 "
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Manuela Ralha
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sábado, agosto 08, 2009
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sexta-feira, 24 de julho de 2009
anedotas de um dia-a-dia diferente...
No outro dia conversava com um amiga que me dizia que achava pura e simplesmente surrealista certos acontecimentos do meu dia-a-dia...e que me dizia que achava pertinente que os exprimisse publicamente para que outros percebessem o que é complicado viver sentado numa cadeira de rodas.
Note-se que não estou aqui a fazer o apelo à piedade... até porque quem me conhece bem sabe que eu sou a primeira a rir e muito com as "desgraças" que me acontecem.
Mas voltando ao início, decidi então partilhar convosco, os que têm a bondade e a paciência de me lerem as minhas aventuras e desventuras.
Começou tudo com o meu acidente. Com o dia do acidente. Depois de ter sído desencarcerada...depois de ter estado MEIA HORA, leram bem, meia hora à espera dos bombeiros e da polícia ( Na estrada da fábrica Central de Cervejas, perto de Vialonga, da Póvoa de Sta Iria, de Alverca, do Forte da Casa...), e de os bombeiros ( que foram uns queridos, extremamente eficientes e cuidadosos no seu trabalho, da corporação de Vialonga, a quem agradeço publicamente toda a simpatia e cuidado ) estarem desesperados ao telefone ( telemóvel pessoal, por acaso, dos próprios) e de não haver INEM desponível para assistir uma vítima de acidente de viação, encarcerada e em paragem cárdio-respiratória ( moi, eu, a je), porque tinha começado o Euro 2004 e estava tudo em Lisboa, de terem decidido que mal por mal mais valia levarem-me para Vila Franca porque estava mais perto.
Coitados, eles tinham as melhores das intenções...
mas pronto, lá segui eu a oxigénio, completamente imobilizada para Vila Franca de Xira.
Entrada na sala cuidados intensivos..."sabe o seu nome?" Lá disse eu o nome..." Então vai para o rx e para as urgências porque não tem sangue nem feridas visíveis".
Toca a tirar tudo o que me imobilizava, não interessava se estava algo partido, interessava era tirar...e atirar-me literalmente para cima de uma maca.
Chegada ao Rx, fui literalmente atirada para cima da maca, porque me queriam de pé...e eu não me conseguia levantar.
Volta para as urgências.
Fui posta a soro, maca nas urgências..."está bem?" Tinha dores...normal, diziam-me.
passou uma, duas horas, visita dos amigos que trabalham no hospital "precisas de alguma coisa? " Eu precisava de sair era daqui...ou que algum médico me visse, também era bom.
"Olhe, não tem nada partido"...então e TAC? "Pois não temos, mas ficamos aqui a observá-la".
Aqui?! Em Vila Franca? Sem Tac? Pronto, está bem.
Pais e marido lá fora.
Sem notícias.
Passou mais uma, duas horas...visita do marido... dos pais...
Mais outra hora, mais outra...Então que raio, nenhum médico me vem ver?
pronto, estou aqui á mais de oito horas deitada numa maca, a soro. Tirem-me daqui!!
"Então vai para casa" Para casa? mas o que tenho afinal? Não me mexo...
"Ah, está dorida, é normal." Dorida?! Afinal quando posso voltar a conduzir? " Daqui a uma semana, mais coisa menos coisa. Leva aqui o Ben-U-ron para as dores e daqui a uma semana está fina".
Ok. Casa. Mas não me levanto...Tudo bem, os bombeiros levam-me.
" Olha lá, tu põe mas é um colar cervical, não te mexas mais, compra uma arrastadeira e vai a um médico bom, porque tens aí porcaria da grossa" diz-me uma bombeira amiga que me foi buscar da corporação de Vila Franca de Xira.
Assim fiz. Deitada sempre. Dores horríveis. ben-U-ron? Eu quero é um médico decente.
Ok, vais ao teu ortopedista. Deitada. Numa maca de imobilização.
Uma vez ao médico. Mas eu urino-me toda, não mexo as pernas...
Vou ser vista por um neurologista...
" Chamem já um neuro cirurgião"!!
" Vai já de urgência para S. José!"
Urgência? mas já passou mais de uma semana...
S. José! Internada no S.O.
Estava de facto mal. Primeiros Tac...Primeiras ressonâncias...
Esqueceram-se de mim 4 horas na Ressonância magnética...Esqueceram-se de me ir buscar. O meu marido deu por minha falta...se não fosse isso...
Pronto, agora estou internada em Vertebro-medular. Espera lá, é só gente paraplégica e tetraplégica...mas afinal o q se passa comigo?
Dias a fio...internada...sem saber o que tenho..." Não mexe os pés"..." Não reage ás picadas"...
E o almoço, minha gente? Comidinha inteira para quem estava imobilizada num aparelho...tão bom!
O que vale é que o meu marido me dá de comer todos os dias...coitado, vem só para me dar de comer ao almoço, vai a correr trabalhar e volta ao fim do dia.
E então? " Vêm fazer-lhe fisio"
Ok, deve ser bom.
"Afinal volta para Vila Franca e eles que a mandem para Alcoitão".
Para Alcoitão? Mas que raio tenho afinal?
"Vai já hoje." se me mandam para Vila Franca ainda vou hoje para casa. "Para casa? Não. para Alcoitão!"
Pois, se eu não conhece-se o nosso hospital...
Entrada em Vila Franca. Bata de S. José vestida. Triagem! Triagem? Mas eu venho de S. José!
Triagem! 4 horas na triagem...desculpem, isto não é normal...
" Então e agora'" pergunta o Ortopedista..."Agora não sei, não temos Neurocirurgia" diz a médica de medicina Interna...e eu a olhar e a sorrir...vou para casa, penso eu.
" Então, tens que ser tu a observá-la", diz o ortopedista. " Eu?! "grita a colega de Medicina Interna. Olhem que engraçado, 20 minutos aos gritos...
Ai, ela vem-me auscultar?! Auscultar?! mas eu não tenho nada respiratório!!
" Pronto, já a observei, vai para casa".
PARA CASA?! VOU PARA CASA?! Mas eu não me posso sentar, estou algaliada, não urino sozinha...VOU PARA CASA?!
"Então, vai para casa e a seguir vai à sua médica de família"...
E vim para casa...
E estou paraplégica. Lesão na medula. Com comprometimento dos esfinters da bexiga e do anús.
Irreversível.
Nada a fazer.
Juro que tudo isto que relatei é a mais pura verdade.
E assim passou toda a vida num só dia...
Note-se que não estou aqui a fazer o apelo à piedade... até porque quem me conhece bem sabe que eu sou a primeira a rir e muito com as "desgraças" que me acontecem.
Mas voltando ao início, decidi então partilhar convosco, os que têm a bondade e a paciência de me lerem as minhas aventuras e desventuras.
Começou tudo com o meu acidente. Com o dia do acidente. Depois de ter sído desencarcerada...depois de ter estado MEIA HORA, leram bem, meia hora à espera dos bombeiros e da polícia ( Na estrada da fábrica Central de Cervejas, perto de Vialonga, da Póvoa de Sta Iria, de Alverca, do Forte da Casa...), e de os bombeiros ( que foram uns queridos, extremamente eficientes e cuidadosos no seu trabalho, da corporação de Vialonga, a quem agradeço publicamente toda a simpatia e cuidado ) estarem desesperados ao telefone ( telemóvel pessoal, por acaso, dos próprios) e de não haver INEM desponível para assistir uma vítima de acidente de viação, encarcerada e em paragem cárdio-respiratória ( moi, eu, a je), porque tinha começado o Euro 2004 e estava tudo em Lisboa, de terem decidido que mal por mal mais valia levarem-me para Vila Franca porque estava mais perto.
Coitados, eles tinham as melhores das intenções...
mas pronto, lá segui eu a oxigénio, completamente imobilizada para Vila Franca de Xira.
Entrada na sala cuidados intensivos..."sabe o seu nome?" Lá disse eu o nome..." Então vai para o rx e para as urgências porque não tem sangue nem feridas visíveis".
Toca a tirar tudo o que me imobilizava, não interessava se estava algo partido, interessava era tirar...e atirar-me literalmente para cima de uma maca.
Chegada ao Rx, fui literalmente atirada para cima da maca, porque me queriam de pé...e eu não me conseguia levantar.
Volta para as urgências.
Fui posta a soro, maca nas urgências..."está bem?" Tinha dores...normal, diziam-me.
passou uma, duas horas, visita dos amigos que trabalham no hospital "precisas de alguma coisa? " Eu precisava de sair era daqui...ou que algum médico me visse, também era bom.
"Olhe, não tem nada partido"...então e TAC? "Pois não temos, mas ficamos aqui a observá-la".
Aqui?! Em Vila Franca? Sem Tac? Pronto, está bem.
Pais e marido lá fora.
Sem notícias.
Passou mais uma, duas horas...visita do marido... dos pais...
Mais outra hora, mais outra...Então que raio, nenhum médico me vem ver?
pronto, estou aqui á mais de oito horas deitada numa maca, a soro. Tirem-me daqui!!
"Então vai para casa" Para casa? mas o que tenho afinal? Não me mexo...
"Ah, está dorida, é normal." Dorida?! Afinal quando posso voltar a conduzir? " Daqui a uma semana, mais coisa menos coisa. Leva aqui o Ben-U-ron para as dores e daqui a uma semana está fina".
Ok. Casa. Mas não me levanto...Tudo bem, os bombeiros levam-me.
" Olha lá, tu põe mas é um colar cervical, não te mexas mais, compra uma arrastadeira e vai a um médico bom, porque tens aí porcaria da grossa" diz-me uma bombeira amiga que me foi buscar da corporação de Vila Franca de Xira.
Assim fiz. Deitada sempre. Dores horríveis. ben-U-ron? Eu quero é um médico decente.
Ok, vais ao teu ortopedista. Deitada. Numa maca de imobilização.
Uma vez ao médico. Mas eu urino-me toda, não mexo as pernas...
Vou ser vista por um neurologista...
" Chamem já um neuro cirurgião"!!
" Vai já de urgência para S. José!"
Urgência? mas já passou mais de uma semana...
S. José! Internada no S.O.
Estava de facto mal. Primeiros Tac...Primeiras ressonâncias...
Esqueceram-se de mim 4 horas na Ressonância magnética...Esqueceram-se de me ir buscar. O meu marido deu por minha falta...se não fosse isso...
Pronto, agora estou internada em Vertebro-medular. Espera lá, é só gente paraplégica e tetraplégica...mas afinal o q se passa comigo?
Dias a fio...internada...sem saber o que tenho..." Não mexe os pés"..." Não reage ás picadas"...
E o almoço, minha gente? Comidinha inteira para quem estava imobilizada num aparelho...tão bom!
O que vale é que o meu marido me dá de comer todos os dias...coitado, vem só para me dar de comer ao almoço, vai a correr trabalhar e volta ao fim do dia.
E então? " Vêm fazer-lhe fisio"
Ok, deve ser bom.
"Afinal volta para Vila Franca e eles que a mandem para Alcoitão".
Para Alcoitão? Mas que raio tenho afinal?
"Vai já hoje." se me mandam para Vila Franca ainda vou hoje para casa. "Para casa? Não. para Alcoitão!"
Pois, se eu não conhece-se o nosso hospital...
Entrada em Vila Franca. Bata de S. José vestida. Triagem! Triagem? Mas eu venho de S. José!
Triagem! 4 horas na triagem...desculpem, isto não é normal...
" Então e agora'" pergunta o Ortopedista..."Agora não sei, não temos Neurocirurgia" diz a médica de medicina Interna...e eu a olhar e a sorrir...vou para casa, penso eu.
" Então, tens que ser tu a observá-la", diz o ortopedista. " Eu?! "grita a colega de Medicina Interna. Olhem que engraçado, 20 minutos aos gritos...
Ai, ela vem-me auscultar?! Auscultar?! mas eu não tenho nada respiratório!!
" Pronto, já a observei, vai para casa".
PARA CASA?! VOU PARA CASA?! Mas eu não me posso sentar, estou algaliada, não urino sozinha...VOU PARA CASA?!
"Então, vai para casa e a seguir vai à sua médica de família"...
E vim para casa...
E estou paraplégica. Lesão na medula. Com comprometimento dos esfinters da bexiga e do anús.
Irreversível.
Nada a fazer.
Juro que tudo isto que relatei é a mais pura verdade.
E assim passou toda a vida num só dia...
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sexta-feira, julho 24, 2009
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segunda-feira, 4 de maio de 2009
Há quanto tempo...
Verdade, não vinha aqui há tanto tempo. Uma imensidão de horas e minutos...mas de facto a minha vida é tão chata e rotineira que sobre ela não me ocorre dizer nada.
A não ser que vêm aí as eleições...
Que emocionante. Finalmente vão dar beijinhos em criancinhas, lembrar-se dos pobres e desempregados e sim, finalmente, denunciar a falta de apoio aos deficientes.
É lá, apraz-me dizer, finalmente somos gente! E gente importante...
Vão prometer fazer rampas, acessos, fazer cumprir directivas comunitárias, dar apoios...
Vão indignar-se e derramar lágrimas frente às injustiças... convidarão deficientes de todos os géneros para listas de candidatos, de apoio, como mandatários de campanha, porque é chique e está na moda...
E depois?
Bom, no dia a seguir esquecer-se-ão das promessas, ignorarão o desespero, fecharão os olhos às dificuldades...
Esquecer-se-ão dos apoios, das rampas, das regras comunitárias...
Esquecer-nos-ão!
Que chocante!...Será?! Não é sempre assim?!
Deixem-me mas é aproveitar estes escassos momentos de visibilidade...
e lembrar que nós estamos cá todos os dias!!
Não sei é se servirá para alguma coisa...
A não ser que vêm aí as eleições...
Que emocionante. Finalmente vão dar beijinhos em criancinhas, lembrar-se dos pobres e desempregados e sim, finalmente, denunciar a falta de apoio aos deficientes.
É lá, apraz-me dizer, finalmente somos gente! E gente importante...
Vão prometer fazer rampas, acessos, fazer cumprir directivas comunitárias, dar apoios...
Vão indignar-se e derramar lágrimas frente às injustiças... convidarão deficientes de todos os géneros para listas de candidatos, de apoio, como mandatários de campanha, porque é chique e está na moda...
E depois?
Bom, no dia a seguir esquecer-se-ão das promessas, ignorarão o desespero, fecharão os olhos às dificuldades...
Esquecer-se-ão dos apoios, das rampas, das regras comunitárias...
Esquecer-nos-ão!
Que chocante!...Será?! Não é sempre assim?!
Deixem-me mas é aproveitar estes escassos momentos de visibilidade...
e lembrar que nós estamos cá todos os dias!!
Não sei é se servirá para alguma coisa...
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segunda-feira, maio 04, 2009
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terça-feira, 3 de março de 2009
Deficiências...em animação.

Para verem uma campanha fantástica que correu no Reino Unido visitem este site:
http://www.creaturediscomforts.org/
«As pessoas com deficiência são pessoas como as outras. Querem apenas aproveitar a vida e fazer as coisas normais do dia a dia, como ir trabalhar, apanhar o autocarro, comprar roupa, praticar desporto, jantar fora, viajar, ver televisão e tagarelar sobre a meteorologia.
Creature Discomforts é uma série de pequenos filmes de animação baseados nas experiências de pessoas reais.»
Vale mesmo a pena visitar e ver os videos. Apenas uma chamada de atenção, têm que falar inglês. Tem também legenda para surdos , em inglês.
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terça-feira, março 03, 2009
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
As barreiras emocionais
Muitas vezes as pessoas ditas "normais" pensam e acham que apenas as barreiras físicas são impeditivas para os deficientes. Infelizmente essa não é a verdade.
Falemos então das barreiras para as quais não há legislação aplicável. Quais são? As barreiras emocionais.
Por barreiras emocionais entendo as barreiras psicológicas, aquelas que descriminam, as que humilham, as que silenciam. As barreiras criadas pela discriminação. As barreiras sociais. As que sentimos cada vez que somos olhados de lado, cada vez que nos humilham porque somos "diferentes".
Ou cada vez que nos tratam como "coitadinhos".
Ou cada vez que somos gozados na rua. Dizia um dos leitores deste blog que sofre de uma incapacidade visual que é alvo de chacota por parte de alguns jovens cada vez que vai na rua. Este particular comportamento também acontece com os idosos, infelizmente. Não há uma educação cultural que permita encarar o outro como um ser igual. É ignóbil. Mas infelizmente não são só os jovens que o fazem.
O mesmo acontece nos supermercados em que existe uma caixa própria para deficientes, e no caso dos deficientes motores é essencial, não porque permite "passar à frente" mas porque é a única que tem largura suficiente para a cadeira de rodas passar. E o que acontece? Está sempre ocupada ou fechada. E no meu caso, sempre que me perguntam porque não me dirijo à caixa prioritária, respondo sempre o mesmo, já fui suficientemente humilhada por clientes"normais" que ficam demasiado incomodados por serem chamados à atenção para querer passar por isso mais uma vez.
E as casas de banho? As de deficientes ou estão fechadas ou normalmente ocupadas por quem não necessita delas. E para nós que não controlamos as necessidades fisiológicas basta por vezes um instante para que fiquemos num estado em que nos sentimos de facto humilhados e vencidos...
As filas nas entidades publicas, os balcões altos, a inacessibilidade às prateleiras dos supermercados, a falta de civismo por parte do publico, todos estes factores acabam por ser desmotivadores para quem de facto tem dificuldades acrescidas na vivência do dia-a-dia.
E o que dizer ao isolamento social, ao estigma, à solidão? Quantos de nós nos preocupamos com os amigos ou conhecidos que vivem isolados e presos na sua clausura, não por iniciativa própria mas porque não têm condições para sair?
Não sejam solidários só no Natal...
Sejam-no todos os dias e olhem um bocadinho para o lado. Só um minuto. É o bastante para fazer a diferença.
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Manuela Ralha
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quinta-feira, fevereiro 19, 2009
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