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sexta-feira, 24 de julho de 2009

anedotas de um dia-a-dia diferente...

No outro dia conversava com um amiga que me dizia que achava pura e simplesmente surrealista certos acontecimentos do meu dia-a-dia...e que me dizia que achava pertinente que os exprimisse publicamente para que outros percebessem o que é complicado viver sentado numa cadeira de rodas.
Note-se que não estou aqui a fazer o apelo à piedade... até porque quem me conhece bem sabe que eu sou a primeira a rir e muito com as "desgraças" que me acontecem.
Mas voltando ao início, decidi então partilhar convosco, os que têm a bondade e a paciência de me lerem as minhas aventuras e desventuras.
Começou tudo com o meu acidente. Com o dia do acidente. Depois de ter sído desencarcerada...depois de ter estado MEIA HORA, leram bem, meia hora à espera dos bombeiros e da polícia ( Na estrada da fábrica Central de Cervejas, perto de Vialonga, da Póvoa de Sta Iria, de Alverca, do Forte da Casa...), e de os bombeiros ( que foram uns queridos, extremamente eficientes e cuidadosos no seu trabalho, da corporação de Vialonga, a quem agradeço publicamente toda a simpatia e cuidado ) estarem desesperados ao telefone ( telemóvel pessoal, por acaso, dos próprios) e de não haver INEM desponível para assistir uma vítima de acidente de viação, encarcerada e em paragem cárdio-respiratória ( moi, eu, a je), porque tinha começado o Euro 2004 e estava tudo em Lisboa, de terem decidido que mal por mal mais valia levarem-me para Vila Franca porque estava mais perto.
Coitados, eles tinham as melhores das intenções...
mas pronto, lá segui eu a oxigénio, completamente imobilizada para Vila Franca de Xira.
Entrada na sala cuidados intensivos..."sabe o seu nome?" Lá disse eu o nome..." Então vai para o rx e para as urgências porque não tem sangue nem feridas visíveis".
Toca a tirar tudo o que me imobilizava, não interessava se estava algo partido, interessava era tirar...e atirar-me literalmente para cima de uma maca.
Chegada ao Rx, fui literalmente atirada para cima da maca, porque me queriam de pé...e eu não me conseguia levantar.
Volta para as urgências.
Fui posta a soro, maca nas urgências..."está bem?" Tinha dores...normal, diziam-me.
passou uma, duas horas, visita dos amigos que trabalham no hospital "precisas de alguma coisa? " Eu precisava de sair era daqui...ou que algum médico me visse, também era bom.
"Olhe, não tem nada partido"...então e TAC? "Pois não temos, mas ficamos aqui a observá-la".
Aqui?! Em Vila Franca? Sem Tac? Pronto, está bem.
Pais e marido lá fora.
Sem notícias.
Passou mais uma, duas horas...visita do marido... dos pais...
Mais outra hora, mais outra...Então que raio, nenhum médico me vem ver?
pronto, estou aqui á mais de oito horas deitada numa maca, a soro. Tirem-me daqui!!
"Então vai para casa" Para casa? mas o que tenho afinal? Não me mexo...
"Ah, está dorida, é normal." Dorida?! Afinal quando posso voltar a conduzir? " Daqui a uma semana, mais coisa menos coisa. Leva aqui o Ben-U-ron para as dores e daqui a uma semana está fina".
Ok. Casa. Mas não me levanto...Tudo bem, os bombeiros levam-me.
" Olha lá, tu põe mas é um colar cervical, não te mexas mais, compra uma arrastadeira e vai a um médico bom, porque tens aí porcaria da grossa" diz-me uma bombeira amiga que me foi buscar da corporação de Vila Franca de Xira.
Assim fiz. Deitada sempre. Dores horríveis. ben-U-ron? Eu quero é um médico decente.
Ok, vais ao teu ortopedista. Deitada. Numa maca de imobilização.
Uma vez ao médico. Mas eu urino-me toda, não mexo as pernas...
Vou ser vista por um neurologista...
" Chamem já um neuro cirurgião"!!
" Vai já de urgência para S. José!"
Urgência? mas já passou mais de uma semana...
S. José! Internada no S.O.
Estava de facto mal. Primeiros Tac...Primeiras ressonâncias...
Esqueceram-se de mim 4 horas na Ressonância magnética...Esqueceram-se de me ir buscar. O meu marido deu por minha falta...se não fosse isso...
Pronto, agora estou internada em Vertebro-medular. Espera lá, é só gente paraplégica e tetraplégica...mas afinal o q se passa comigo?
Dias a fio...internada...sem saber o que tenho..." Não mexe os pés"..." Não reage ás picadas"...
E o almoço, minha gente? Comidinha inteira para quem estava imobilizada num aparelho...tão bom!
O que vale é que o meu marido me dá de comer todos os dias...coitado, vem só para me dar de comer ao almoço, vai a correr trabalhar e volta ao fim do dia.
E então? " Vêm fazer-lhe fisio"
Ok, deve ser bom.
"Afinal volta para Vila Franca e eles que a mandem para Alcoitão".
Para Alcoitão? Mas que raio tenho afinal?
"Vai já hoje." se me mandam para Vila Franca ainda vou hoje para casa. "Para casa? Não. para Alcoitão!"
Pois, se eu não conhece-se o nosso hospital...
Entrada em Vila Franca. Bata de S. José vestida. Triagem! Triagem? Mas eu venho de S. José!
Triagem! 4 horas na triagem...desculpem, isto não é normal...
" Então e agora'" pergunta o Ortopedista..."Agora não sei, não temos Neurocirurgia" diz a médica de medicina Interna...e eu a olhar e a sorrir...vou para casa, penso eu.
" Então, tens que ser tu a observá-la", diz o ortopedista. " Eu?! "grita a colega de Medicina Interna. Olhem que engraçado, 20 minutos aos gritos...
Ai, ela vem-me auscultar?! Auscultar?! mas eu não tenho nada respiratório!!
" Pronto, já a observei, vai para casa".
PARA CASA?! VOU PARA CASA?! Mas eu não me posso sentar, estou algaliada, não urino sozinha...VOU PARA CASA?!
"Então, vai para casa e a seguir vai à sua médica de família"...
E vim para casa...
E estou paraplégica. Lesão na medula. Com comprometimento dos esfinters da bexiga e do anús.
Irreversível.
Nada a fazer.
Juro que tudo isto que relatei é a mais pura verdade.
E assim passou toda a vida num só dia...

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Há quanto tempo...

Verdade, não vinha aqui há tanto tempo. Uma imensidão de horas e minutos...mas de facto a minha vida é tão chata e rotineira que sobre ela não me ocorre dizer nada.
A não ser que vêm aí as eleições...
Que emocionante. Finalmente vão dar beijinhos em criancinhas, lembrar-se dos pobres e desempregados e sim, finalmente, denunciar a falta de apoio aos deficientes.
É lá, apraz-me dizer, finalmente somos gente! E gente importante...
Vão prometer fazer rampas, acessos, fazer cumprir directivas comunitárias, dar apoios...
Vão indignar-se e derramar lágrimas frente às injustiças... convidarão deficientes de todos os géneros para listas de candidatos, de apoio, como mandatários de campanha, porque é chique e está na moda...
E depois?
Bom, no dia a seguir esquecer-se-ão das promessas, ignorarão o desespero, fecharão os olhos às dificuldades...
Esquecer-se-ão dos apoios, das rampas, das regras comunitárias...
Esquecer-nos-ão!
Que chocante!...Será?! Não é sempre assim?!
Deixem-me mas é aproveitar estes escassos momentos de visibilidade...
e lembrar que nós estamos cá todos os dias!!
Não sei é se servirá para alguma coisa...

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Talvez...



Talvez eu venha a envelhecer rápido demais.
Mas lutarei para que cada dia
tenha valido a pena.
Talvez eu sofra inúmeras desilusões
no decorrer da minha vida.
Mas farei com que elas percam a importância
diante dos gestos de amor que encontrei.
Talvez eu não tenha forças
para realizar todos os meus ideais.
Mas jamais irei considerar-me derrotada.
Talvez em algum instante
eu sofra uma terrível queda.
Mas não ficarei por muito tempo
a olhar para o chão.
Talvez um dia o sol deixe de brilhar.
Mas então irei banhar-me na chuva.
Talvez um dia eu sofra alguma injustiça.
Mas jamais irei assumir o papel de vítima.
Talvez eu tenha que enfrentar
alguns inimigos.
Mas terei humildade para aceitar
as mãos que se estenderão em minha direção.
Talvez numa dessas noites frias,
eu derrame muitas lágrimas.
Mas não terei vergonha por esse gesto.
Talvez eu seja enganada inúmeras vezes.
Mas não deixarei de acreditar que em algum lugar alguém merece a minha confiança.
Talvez com o tempo eu perceba
que cometi grandes erros.
Mas não desistirei de continuar
trilhando meu caminho.
Talvez com o decorrer dos anos
eu perca grandes amizades.
Mas irei aprender que aqueles que
realmente são meus verdadeiros amigos
nunca estarão perdidos.
Talvez algumas pessoas queiram o meu mal.
Mas irei continuar plantando
a semente da fraternidade por onde passar.
Talvez eu fique triste
ao concluir que não consigo
seguir o ritmo da música.
Mas então,
farei com que a música siga
o compasso dos meus passos.
Talvez eu nunca consiga ver um arco-íris.
Mas aprenderei a desenhar um,
nem que seja dentro do meu coração.
Talvez hoje eu me sinta fraca
Mas amanhã irei recomeçar,
nem que seja de uma maneira diferente.
Talvez eu não aprenda
todas as lições necessárias.
Mas terei a consciência de que
os verdadeiros ensinamentos já estão
gravados na minha alma.
Talvez eu me deprima
por não ser capaz de saber
a letra daquela música.
Mas ficarei feliz
com as outras capacidades que possuo.
Talvez eu não tenha motivos
para grandes comemorações.
Mas não deixarei de me alegrar
com as pequenas conquistas.
Talvez a vontade de abandonar tudo
se torne a minha companheira.
Mas ao invés de fugir,
irei correr atrás do que almejo.
Talvez eu não seja exatamente
quem gostaria de ser.
Mas passarei a admirar quem sou.
Porque no final saberei que,
mesmo com incontáveis dúvidas,
eu sou capaz de construir uma vida melhor.
E se ainda não me convenci disso,
é porque como diz aquele ditado:
"Ainda não chegou o fim"
Porque no final não haverá nenhum
"talvez" e sim a certeza de que
a minha vida valeu a pena e
eu fiz o melhor que podia.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

As barreiras emocionais

Muitas vezes as pessoas ditas "normais" pensam e acham que apenas as barreiras físicas são impeditivas para os deficientes. Infelizmente essa não é a verdade.
Falemos então das barreiras para as quais não há legislação aplicável. Quais são? As barreiras emocionais.
Por barreiras emocionais entendo as barreiras psicológicas, aquelas que descriminam, as que humilham, as que silenciam. As barreiras criadas pela discriminação. As barreiras sociais. As que sentimos cada vez que somos olhados de lado, cada vez que nos humilham porque somos "diferentes".
Ou cada vez que nos tratam como "coitadinhos".
Ou cada vez que somos gozados na rua. Dizia um dos leitores deste blog que sofre de uma incapacidade visual que é alvo de chacota por parte de alguns jovens cada vez que vai na rua. Este particular comportamento também acontece com os idosos, infelizmente. Não há uma educação cultural que permita encarar o outro como um ser igual. É ignóbil. Mas infelizmente não são só os jovens que o fazem.
O mesmo acontece nos supermercados em que existe uma caixa própria para deficientes, e no caso dos deficientes motores é essencial, não porque permite "passar à frente" mas porque é a única que tem largura suficiente para a cadeira de rodas passar. E o que acontece? Está sempre ocupada ou fechada. E no meu caso, sempre que me perguntam porque não me dirijo à caixa prioritária, respondo sempre o mesmo, já fui suficientemente humilhada por clientes"normais" que ficam demasiado incomodados por serem chamados à atenção para querer passar por isso mais uma vez.
E as casas de banho? As de deficientes ou estão fechadas ou normalmente ocupadas por quem não necessita delas. E para nós que não controlamos as necessidades fisiológicas basta por vezes um instante para que fiquemos num estado em que nos sentimos de facto humilhados e vencidos...
As filas nas entidades publicas, os balcões altos, a inacessibilidade às prateleiras dos supermercados, a falta de civismo por parte do publico, todos estes factores acabam por ser desmotivadores para quem de facto tem dificuldades acrescidas na vivência do dia-a-dia.
E o que dizer ao isolamento social, ao estigma, à solidão? Quantos de nós nos preocupamos com os amigos ou conhecidos que vivem isolados e presos na sua clausura, não por iniciativa própria mas porque não têm condições para sair?
Não sejam solidários só no Natal...
Sejam-no todos os dias e olhem um bocadinho para o lado. Só um minuto. É o bastante para fazer a diferença.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Escrito a 20.07.2005

Relembro que este texto data de 2005, mas o facto de ter quase 4 anos não lhe tira o sentido...apenas estou mais serena ( às vezes...).


São 04.15 da manhã e mais uma vez não durmo. Começa a tornar-se um hábito na minha vida. A cabeça não pára. É assim quase desde o acidente. Aquilo que eu não digo de dia, penso de noite. Quando leio o que escrevi numas páginas atrás, um mês antes do acidente( poderei antes dizer, da minha morte, da morte do que eu era, do que sempre fui)não me reconheço. Quem era aquela pessoa insatisfeita com a vida, incapaz de parar, sem saber como lidar com as confusões do dia-a-dia? E quem sou eu agora? No que me tornei? Num pássaro sem asas?

No entanto, curiosamente, atingi uma certa paz. E já gosto de mim.

"Senhor dai-me forças para aceitar aquilo que não posso mudar"-passou a ser a máxima da minha vida. Não faz mal não conseguir andar desde que continue a ser eu, a se amada, a ser Mulher. É mais um começo, digo eu. Um renascimento. A fénix renascida das cinzas...

Mas à noite é tão difícil. No escuro, na solidão, no silêncio, as vozes na minha cabeça não param. As memórias do dia, o medo, a solidão, tudo me assola.

Vou procurar novo médico? Mais uma desilusão? Terei coragem? DEIXEM-ME!!

Sou eu que não ando, fui eu que morri!

Só quero renascer em paz. Deixem-me ter paz.

Comecei a gostar do silêncio. É reconfortante. É como o útero materno, um calor doce que nos protege e envolve. Também a solidão é doce. MAS MATA!! A INDIFERENÇA MATA!!

Será por isso que tanta coisa em mim morreu? Quem sou eu, agora? Porque me faço forte e tenho tanto medo de que pensem que sou piegas? Porque não consigo abrir a boca e expelir este grito surdo que me sufoca? EU MORRI!!! E agora quem sou eu?

Não preciso ir ao fundo de mim para ter força, para lutar. É inato. Não vergarei!

No entanto...será que se eu fechar os olhos consigo dormir? Queria tanto dormir! Será que quando eu acordar o pesadelo acabou?

ÀS vezes acho que começo a sentir qualquer coisa, mas depois vejo que não é verdade. Porque me engana a minha cabeça? Para depois me entristecer ainda mais? Será que se eu cortar uma perna sinto? Já pensei nisso, pegar numa faca e dar um golpe...Que estupidez! Afinal, gosto tanto de viver. Descobri-o quando morri.

Mas que futuro é que esta pessoa terá agora? Como vou fazer o que gosto? Tenho saudades de dançar, dançar até cair.

De saltar, de correr, sim, tenho saudades de correr. E de andar. E de rebolar na relva. E de nadar. E de andar de mão dada com o meu amor.

Oh Rui, se tu soubesses...se tu soubesses que já morri uma vez, mas que esta outra é diferente, tão diferente... Será que amas aquilo que sou agora?

A minha calma , a minha serenidade e o meu desespero. Olha, não te consigo dizer, como posso te dizer que já morri? E que sou um fantasma do que era?

Mas ao mesmo tempo renasci outra mulher. A voz é a minha, o rosto, o muro, as defesas, mas eu, o outro eu, já morreu. Ficou com os sonhos.

Esta outra já não sonha. Nem dorme. Vive no limbo, qual morta-viva, a quem se esqueceram de avisar que já morreu. Se calhar a paz é essa. A calma é essa. Estou morta e ainda não percebi...

Mas todos os dias visto o "fato" e subo ao palco. " The show must go on". Ri, palhaço...

" Mais triste que o teu sorriso triste é a tristeza de não saber sorrir"...quem foi o hipócrita que escreveu isto, que nos obriga a ficar com um ar de quem acabou de fazer uma cirurgia plástica de 3ª categoria? Assim com a cara meio pateta, com a boca repuxada...

Estou vazia de conteúdo e ideias. Só penso no exame médico, nos que ainda faltam fazer, no que é preciso pedir ao médico, em como vou voltar a fazer fisioterapia.

Céus, como é fútil agora a minha vida! Ou era antes?

Gostava de pensar em gastar dinheiro ( que não tenho, mas enfim...), em jóias, em roupa, em dietas, em maquilhagens, em futilidades...

Mas penso em médicos, em exames de diagnóstico, em fisioterapia, em processos judiciais, no que falta fazer.

Nunca sonhei com o acidente. Nem me lembro já bem como foi. Ou não me quero lembrar...Se calhar não nos lembramos de como morremos.

Deve ser do sono! Só penso disparates! Claro que me lembro. De tudo!

"Senhor, dai-me serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar". É o meu novo lema. Ajuda. Aceito tudo.

Até quando?

Princípios orientadores deste blog

Hoje acordei, aliás mal dormi, com uma necessidade brutal de escrever. Não se trata de uma manifestação narcísica da minha pessoa ( passo a redundância) mas de uma necessidade terapêutica...é, descobri que a escrita de facto é terapêutica, lava-nos a alma( ai que isto durante a noite martelava-me melhor na cabeça, agora quase não me lembro).
De facto, percebi que tenho que dar uma orientação a este blog, não posso continuar a lançar desabafos, sem explicar para que de facto o criei.
Não é mais do que um espaço onde me permito dizer o que de outra forma não consigo ou não tenho espaço para o fazer.
Servirá ainda o propósito da denúncia...das más acessibilidades, da falta de apoios...para tal conto com o contributo de quem o lê, para que me auxilie a enriquecê-lo com situações concretas...
E ainda tem o objectivo de dar a conhecer como é de facto o dia-a-dia de um paraplégico, ou desta paraplégica, porque não tenho a veleidade de falar pelos outros.
E pronto, já enunciei os princípios orientadores deste blog. Se concordas com eles, continua por cá.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Vou abrir mais uma vez o meu coração. Hoje não estou bem. Nem todos os dias são dias.
Mas hoje de facto não é um bom dia. Até já caí... Por acaso é coisa que me acontece muitas vezes, mas hoje, para chatear, caí. Foi uma estupidez...Estiquei-me para chegar a um sítio, fiz pressão na ponta da cadeira e ela virou-se... Sou mesmo loira...então esquecí-me das leis da Física? Pois foi, olha, paciência...A minha cervical é que pagou, levou com a cadeira de rodas em cima...
Para me irritar ainda mais! devia ter juízo, estou farta de o dizer a mim própria, mas é tão complicado fazer as coisas sentada! E eu estou tão cansada de ter de as fazer...
Mas adiante, não sou rica, não tenho criados, tenho 2 filhos e 2 enteados e um marido que se esmifra para conseguir trazer algum dinheiro para casa...
Mas hoje não estou bem, talvez por isso tenha alterado o esquema da minha página de blog. UM FAROL. Isso é que eu preciso. De um farol que me guie nesta noite escura que atravesso. Não me levem a mal, eu até gosto da noite, mas tão prolongada...
Quem não imagina o que é a vida numa cadeira de rodas, dir-me-á, como tantos o fazem que eu tenho quem tome conta de mim e me ajude...
AHAHAH, como estão iludidos.
Mas nem é por isso que não estou bem, eu já estou habituada à solidão, ao silêncio, são-me tão queridos como o quente do útero materno...por eles estou protegida.
A falta de companhia, que não seja a dos filhos também não é. Isso é o dia-a-dia.
Então o qu me faz estar tão triste e sorumbática?
A impotência.
Não a física, que nesse aspecto felizmente não tenho problemas, apesar de fazer muita confusão a muita gente que os paraplégicos tenham sexo.
As mulheres paraplégicas que eu conheço têm-no, e até são mães.
Mas a impotência de estar presa, de não ter controle nas coisas, de não poder resolver os assuntos pendentes como o fazia...
É tão chato estar sempre a perguntar ao marido" Olha, já resolveste o assunto dos documentos do carro?" ( Já lá vão quase 5 anos)
E estar à espera de notícias do advogado sobre o processo com o seguro...
E não ter emprego nem estar reformada...
E não ter carro, nem cadeira electrica para sair de casa...
E estar farta destes esfincters que não controlo, desta diarreia crónica, destas dores permanentes, deste mal-estar geral...
Vendo bem, isto são coisas de todos os dias, mas hoje particularmente chateiam-me.
Se eu fosse igual a tantos outros, ia-me deitar e punha-me a dormir. Assim como assim, não posso andar...
Mas eu não. Apesar de tudo insisto na parvoíce de continuar em frente. Há pessoas que dependem de mim.
E eu ?
Estava no outro dia a pensar nas minhas aventuras mirabolantes que tenho vivído desde que estou sentada neste "trono", a pensar na coragem que de facto é necessária para me embrenhar na "selva urbana" e cheguei à conclusão que de facto sou meio alucinada.
Porquê? Porque é muito simples. Já tentaram andar nas ruas das cidades e vilas do nosso Portugal numa cadeira de rodas manual? Não? Eu passo a explicar.
Muito embora tenha saído uma lei em 1997 que regia as normas de acessibilidade ( o decreto lei 123/1997) e que foi revista e alterada pelo decreto-lei 163/2006, praticamente nada foi feito nesse sentido. Está certo que o caminho está aberto, mas não há "descobridores e aventureiros" disposto a navegar nestas novas águas, por vezes tão turvas.
Senão vejamos, edifícios públicos com escadas, sem rampas nem elevadores...Não acredito, dirão vocês...Ah, não?! E os hospitais? E os centros de saúde? E as Câmaras Municipais? E os Tribunais, as Finanças, os cartórios Notariais...Ufa, tudo o que rege e condiciona o nosso dia-a-dia enquanto cidadãos. Ah, e as escolas...1º Ciclo, 2ºe 3º Ciclo, Secundárias...enfim, a lista é tão extensa que me arrepia...
Escadas, escadas, escadas, rampas mal feitas, passeios sem desníveis que permitam atravessar para o outro lado, com largura insuficiente para uma cadeira de rodas, com a sinalética de trânsito colocada mesmo no meio do dito, contentores e ecopontos no passeio, escolham vocês.
E o estacionamento? Ah, está marcado, não está? E ocupado pelos "deficientes sociais"...
E estacionamento em sítios que não têm largura para tirarmos a cadeira de rodas do carro, em que os lancis dos passeios não permitem que saiamos do carro e subamos os ditos passeios, para termos acesso às ruas...
Buracos, empedrados, paralelepípedos em pedra, eu sei lá...mais aqueles brilhantes pinos de cimento que delimitam ruas, estacionamentos e outras coisas que não nos permitem passar...
Como digo, a lista é tão extensa que dou a escolhar a quem quiser por onde começar.
cada vez que me dizem " Devias sair de casa" só me apetece atirar para o chão e desatar a rir...para não chorar.
Ainda não falei de uma terra específicamente, a minha Vila Franca de Xira, mas fá-lo-ei, com exemplos concretos. Eu sei que "Roma e Pavia não se fizeram num só dia", mas convenhamos que já passou muito tempo. E há coisas que não carecem de programas especiais de apoio à Mobilidade para serem resolvidas, só um pouco de boa vontade. E essa parte de todos nós.
Sejamos todos agentes de mudança, peço eu neste pequeno alerta.
Olhemos para o lado ( e para baixo, porque podemos sempre cair no colo de alguém que está " sentado"...)
Sejamos solidários...não custa muito.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Nostalgia...

Nostalgia...

Tenho saudades de mim. Tenho saudades de sentir a areia nos pés, de correr selvagem e livre, de saltar de alegria... Tenho saudades da erva molhada, quando descalça a pisava pela manhã... Tenho saudades de andar na rua, lado a lado, de mão dada... Tenho saudades de dançar...Ah, como tenho saudades de dançar como uma louca, sentindo o suor a correr... Não bebi. Era manhã, e eu não bebia de manhã. Aliás, quase nunca bebia. E era de manhã. Aquela estrada, onde brilhava o sol, precisamente naquela manhã, por onde tantas vezes passei, muitas das quais sem me aperceber do que me rodeava, estava igual a tantas outras manhãs. A música suave tocava no rádio do carro. Suave, sem estridências nem alarmes, mas suave como aquela manhã de Primavera, calma e serena. Fila de trânsito à frente. Há sempre uma fila de trânsito à nossa frente. Mas era uma manhã calma, e com calma parei, à distância dos outros carros, serena, tranquila, quase feliz. E a música tocava suave e eu cantarolava. E respirando fundo, tendo todo o tempo do mundo, puxei o travão de mão. Sim, para quê manter a perna em pressão, quando a manhã estava tão calma e serena e o dia se avizinhava tão pleno de realizações e a fila de trânsito nunca mais andava? E um bébé pequeno mais à frente, na sua cadeirinha sentado, no carro de seus pais, bem lá á frente, porque não quis incomodar e invadir a pacatez daquela manhã, parando o meu carro tão perto do seu. Subitamente o barulho! Um barulho arrepiante, ensurdecedor, assustador, fatal... Um chiar de pneus que tentam aderir e violar uma estrada serena, que irrompe na perfeição da minha contemplação... E eu soube. Soube que nada mais havia a fazer. Naqueles segundos de impotência, não vi a vida a passar diante dos meus olhos, nem flashes dos bons e maus momentos, nem o rosto dos meus filhos... Naqueles míseros segundos eu só vi o bébé que estava á minha frente e fechei os olhos, agarrando-me ao volante na frágil e ténue esperança que o barulho parasse, que desaparecesse... E foi assim que ela invadiu a minha segurança, a minha vida, o meu mundo! Ela, a fonte do ruído, do barulho ensurdecedor, do desespero... Ela, uma carroçaria desajeitada e grande demais para tamanha velocidade, numa manhã tão serena... Não bebi. Nunca bebo de manhã. Raramente bebo. E um dia que seria pleno de trabalho, de realizações, de serenidade, tornou-se simultâneamente o último e o primeiro dia do resto da minha vida... Nunca mais senti a plenitude de um dia cheio de trabalho, do trabalho de que se gosta, que se faz com prazer. Nunca mais voltei a caminhar na praia, a pisar descalça a erva molhada pela manhã, a dançar livremente... Nunca mais fui independente e livre! Naquela manhã cortaram-me as asas e já não consigo voar. E tenho saudades... Tenho saudades de MIM!! Manuela Ralha