Relembro que este texto data de 2005, mas o facto de ter quase 4 anos não lhe tira o sentido...apenas estou mais serena ( às vezes...).
São 04.15 da manhã e mais uma vez não durmo. Começa a tornar-se um hábito na minha vida. A cabeça não pára. É assim quase desde o acidente. Aquilo que eu não digo de dia, penso de noite. Quando leio o que escrevi numas páginas atrás, um mês antes do acidente( poderei antes dizer, da minha morte, da morte do que eu era, do que sempre fui)não me reconheço. Quem era aquela pessoa insatisfeita com a vida, incapaz de parar, sem saber como lidar com as confusões do dia-a-dia? E quem sou eu agora? No que me tornei? Num pássaro sem asas?
No entanto, curiosamente, atingi uma certa paz. E já gosto de mim.
"Senhor dai-me forças para aceitar aquilo que não posso mudar"-passou a ser a máxima da minha vida. Não faz mal não conseguir andar desde que continue a ser eu, a se amada, a ser Mulher. É mais um começo, digo eu. Um renascimento. A fénix renascida das cinzas...
Mas à noite é tão difícil. No escuro, na solidão, no silêncio, as vozes na minha cabeça não param. As memórias do dia, o medo, a solidão, tudo me assola.
Vou procurar novo médico? Mais uma desilusão? Terei coragem? DEIXEM-ME!!
Sou eu que não ando, fui eu que morri!
Só quero renascer em paz. Deixem-me ter paz.
Comecei a gostar do silêncio. É reconfortante. É como o útero materno, um calor doce que nos protege e envolve. Também a solidão é doce. MAS MATA!! A INDIFERENÇA MATA!!
Será por isso que tanta coisa em mim morreu? Quem sou eu, agora? Porque me faço forte e tenho tanto medo de que pensem que sou piegas? Porque não consigo abrir a boca e expelir este grito surdo que me sufoca? EU MORRI!!! E agora quem sou eu?
Não preciso ir ao fundo de mim para ter força, para lutar. É inato. Não vergarei!
No entanto...será que se eu fechar os olhos consigo dormir? Queria tanto dormir! Será que quando eu acordar o pesadelo acabou?
ÀS vezes acho que começo a sentir qualquer coisa, mas depois vejo que não é verdade. Porque me engana a minha cabeça? Para depois me entristecer ainda mais? Será que se eu cortar uma perna sinto? Já pensei nisso, pegar numa faca e dar um golpe...Que estupidez! Afinal, gosto tanto de viver. Descobri-o quando morri.
Mas que futuro é que esta pessoa terá agora? Como vou fazer o que gosto? Tenho saudades de dançar, dançar até cair.
De saltar, de correr, sim, tenho saudades de correr. E de andar. E de rebolar na relva. E de nadar. E de andar de mão dada com o meu amor.
Oh Rui, se tu soubesses...se tu soubesses que já morri uma vez, mas que esta outra é diferente, tão diferente... Será que amas aquilo que sou agora?
A minha calma , a minha serenidade e o meu desespero. Olha, não te consigo dizer, como posso te dizer que já morri? E que sou um fantasma do que era?
Mas ao mesmo tempo renasci outra mulher. A voz é a minha, o rosto, o muro, as defesas, mas eu, o outro eu, já morreu. Ficou com os sonhos.
Esta outra já não sonha. Nem dorme. Vive no limbo, qual morta-viva, a quem se esqueceram de avisar que já morreu. Se calhar a paz é essa. A calma é essa. Estou morta e ainda não percebi...
Mas todos os dias visto o "fato" e subo ao palco. " The show must go on". Ri, palhaço...
" Mais triste que o teu sorriso triste é a tristeza de não saber sorrir"...quem foi o hipócrita que escreveu isto, que nos obriga a ficar com um ar de quem acabou de fazer uma cirurgia plástica de 3ª categoria? Assim com a cara meio pateta, com a boca repuxada...
Estou vazia de conteúdo e ideias. Só penso no exame médico, nos que ainda faltam fazer, no que é preciso pedir ao médico, em como vou voltar a fazer fisioterapia.
Céus, como é fútil agora a minha vida! Ou era antes?
Gostava de pensar em gastar dinheiro ( que não tenho, mas enfim...), em jóias, em roupa, em dietas, em maquilhagens, em futilidades...
Mas penso em médicos, em exames de diagnóstico, em fisioterapia, em processos judiciais, no que falta fazer.
Nunca sonhei com o acidente. Nem me lembro já bem como foi. Ou não me quero lembrar...Se calhar não nos lembramos de como morremos.
Deve ser do sono! Só penso disparates! Claro que me lembro. De tudo!
"Senhor, dai-me serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar". É o meu novo lema. Ajuda. Aceito tudo.
Até quando?
