quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

É Carnaval, mas temos que levar a mal.

Na senda da denúncia do que está mal, tenho que protestar contra a organização do Carnaval de Alhandra.
Fi-lo prontamente no local e fá-lo-ei aqui publicamente.
Lá por ter sído organizado por voluntários que se esforçaram por pôr de pé uma tradição antiga da vila de Alhandra, não quer dizer que não apontemos o que está mal. Como o meu pai sempre disse, o voluntariado e o amadorismo acarretam responsabilidades.
Acontece que, eu, como antiga moradora daquela bonita vila à beira rio, peguei nos meus filhos e fui visitar os meus pais e brincar ao Carnaval. Até aqui tudo bem. Mas quando decidi ontem, terça-feira, ir tomar café com as minhas cunhadas e a minha filha, qual não foi o meu espanto quando fui impedida de sair na Travessa do mercado porque a minha cadeira de rodas NÃO CABIA na entrada deixada livre para acesso à zona do desfile ( que por acaso é mesmo onde os meus pais moram).
Não havendo qualquer indicação de alternativa àquela passagem com um aviso ou um distico indicativo de alternativa, protestei, claro. Afirmei que tinha o direito de passar e que o queria fazer. Embora tivessem vedado o acesso à rua Dona Maria Annes e ruas circundantes para poderem angariar fundos para futuras iniciativas, deveriam ter em consideração as pessoas em cadeira de rodas. Afinal, também temos o direito de nos divertirmos, de visitar familiares, de fazer uma vida "normal". Foi-me respondido que, embora eu tivesse razão, tinham-se esquecido deste " pormenor". E não podiam mover as barreiras.
Tenho que referir que a alternativa foi a entrada das viaturas do corso, que ficava bastante longe para quem como eu tem que "andar" de uma forma diferente.
Foi-me prometido, à laia de desculpa, que para o anos, contrariamente a este ano, que se limitaram a medir a largura das cadeiras de bébés( e deviam ser das mais pequenas), tomariam em consideração as cadeiras de rodas.
Até lá esperarei para ver. Sentada...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O meu Pai












Alguém me perguntou uma vez se eu tinha um ídolo. Naquela altura, à muitos anos, fiquei a pensar. Hoje, inubitavelmente vos digo que sim, que tenho.
O meu pai.
Porquê hoje? E porque não?!
Não tenho palavras que descrevam o afecto, o apreço que nutro por este homem. Um homem humilde, sonhador, sensível, um homem de afectos.
Ele foi e é a minha "muleta", o meu porto seguro na tempestade, a minha rosa-dos-ventos.

Desde que entrei nesta nova etapa da minha vida que conto com o apoio inequívoco de dois homens... o meu marido e o meu pai.
O meu pai tem sído incansável no apoio que tem dado à minha família, tanto no plano afectivo como no plano prático, pois é a ele que recorro frequentemente para me deslocar, ou até para o transporte dos meus filhos. Mas não é isto que quero dizer. Quem conhece bem Gutemberg Ralha não se espanta com estas atitudes.
Quero falar-vos do meu ídolo.

Começou muito novo, com 11 anos a trabalhar, para ajudar a sustentar a família. Descalço, pintava quilhas dos barcos no rio em Alhandra. Trabalhou em muitas coisas, foi merceeiro, fez desporto, entrou para a antiga Cimento tejo, foi à tropa, aproveitou a oportunidade que lhe deram na empresa e , em busca de uma vida melhor para si e para os seus voltou a estudar. Fez a antiga escola industrial, a admissão ao liceu e foi estudar engenharia. Com muito esforço, sacrifício, sem descurar a sua família. É certo que mal o víamos, que a minha mãe segurou as pontas, que o meu pai se estafava a trabalhar na fábrica e que, muitas vezes, com apenas uma pequena bucha, lá apanhava o comboio para Lisboa.
Pai de três filhos, foi com muito suor e muitas lágrimas que acabou o curso.

Nunca perdeu de vista a sua paixão, a música. Executante de clarinete desde os 12 anos na banda da Sociedade Euterpe Alhandrense, arranjou sempre tempo para conciliar as suas obrigações. Sim, porque como ele me ensinou, ser amador também acarreta responsabilidades. Mesmo cansado ou abatido, lá segue para o ensaio da banda com um sorriso nos lábios, como nos primeiros tempos. Pelo caminho dirigiu e dirige grupos corais. Sempre com humildade, não gosta de ser chamado nem de engenheiro nem de maestro. Nunca o vi de fato e gravata a não ser quando a ocasião o exige. Na fábrica, mesmo depois de ter acabado o curso, usava fato de macaco e era tratado por Guta ou Tibé.

Ensinou-nos que todos os homens são iguais e que o Dr ou o Eng. não vem no bilhete de identidade. Ensinou-nos que na vida vale a pena lutarmos por aquilo em que acreditamos.

Nunca o vi abatido ou derrotado, embora saiba que já se tenha sentido assim tantas vezes...
Este Homem faz 72 anos dia 27 de Fevereiro. E continua a dar tudo o que tem aos outros, sem nunca pedir ou exigir nada em troca.
Obrigada, pai, por tudo o que me tens dado. Obrigada por tudo o que me ensinaste.
Desculpa se a vida mais uma vez te trocou as voltas e se continuo a precisar de ti, agora que devias viver finalmente tranquilo, sem sobressaltos. Gostava que tudo fosse diferente. Não é.
Pelo menos tenho-te a ti.
Esta é a minha singela homenagem, sentida e chorada, ao Homem da minha vida

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

As barreiras emocionais

Muitas vezes as pessoas ditas "normais" pensam e acham que apenas as barreiras físicas são impeditivas para os deficientes. Infelizmente essa não é a verdade.
Falemos então das barreiras para as quais não há legislação aplicável. Quais são? As barreiras emocionais.
Por barreiras emocionais entendo as barreiras psicológicas, aquelas que descriminam, as que humilham, as que silenciam. As barreiras criadas pela discriminação. As barreiras sociais. As que sentimos cada vez que somos olhados de lado, cada vez que nos humilham porque somos "diferentes".
Ou cada vez que nos tratam como "coitadinhos".
Ou cada vez que somos gozados na rua. Dizia um dos leitores deste blog que sofre de uma incapacidade visual que é alvo de chacota por parte de alguns jovens cada vez que vai na rua. Este particular comportamento também acontece com os idosos, infelizmente. Não há uma educação cultural que permita encarar o outro como um ser igual. É ignóbil. Mas infelizmente não são só os jovens que o fazem.
O mesmo acontece nos supermercados em que existe uma caixa própria para deficientes, e no caso dos deficientes motores é essencial, não porque permite "passar à frente" mas porque é a única que tem largura suficiente para a cadeira de rodas passar. E o que acontece? Está sempre ocupada ou fechada. E no meu caso, sempre que me perguntam porque não me dirijo à caixa prioritária, respondo sempre o mesmo, já fui suficientemente humilhada por clientes"normais" que ficam demasiado incomodados por serem chamados à atenção para querer passar por isso mais uma vez.
E as casas de banho? As de deficientes ou estão fechadas ou normalmente ocupadas por quem não necessita delas. E para nós que não controlamos as necessidades fisiológicas basta por vezes um instante para que fiquemos num estado em que nos sentimos de facto humilhados e vencidos...
As filas nas entidades publicas, os balcões altos, a inacessibilidade às prateleiras dos supermercados, a falta de civismo por parte do publico, todos estes factores acabam por ser desmotivadores para quem de facto tem dificuldades acrescidas na vivência do dia-a-dia.
E o que dizer ao isolamento social, ao estigma, à solidão? Quantos de nós nos preocupamos com os amigos ou conhecidos que vivem isolados e presos na sua clausura, não por iniciativa própria mas porque não têm condições para sair?
Não sejam solidários só no Natal...
Sejam-no todos os dias e olhem um bocadinho para o lado. Só um minuto. É o bastante para fazer a diferença.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009



Esta de facto é uma verdade de La Palisse...palavras para quê?
A lei está lá, mas não se cumpre...
A fiscalização é deficiente visual, as Câmaras deficientes auditivos...Como vêm, afinal nós não somos os diferentes...
Esta devia de ser a sinalética existente...Podia ser que assim se pudesse estacionar, quem sabe...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Benefícios fiscais

Os multibancos e a legislação.

O que diz o especialista sobre as normas dos Multibancos:

"Caixas Multibanco na Via Pública

Uma caixa Multibanco aberta para a via pública tem de cumprir as normas do DL 163/2006?
Sim.
O DL 163/2006 abrange as caixas Multibanco. No seu artigo 2.º (âmbito de aplicação), n.º 2, alínea h), refere os “bancos e respectivas caixas Multibanco”.


No exterior também?

Note-se que não é feita, no âmbito de aplicação, nenhuma distinção entre as caixas Multibanco operáveis a partir do interior do edifício, ou do seu exterior. Deve presumir-se, por isso, que ambas estão abrangidas.

O facto de a secção 2.11 (onde se estabelecem as exigências relativas aos equipamentos de auto-atendimento) estar integrada no capítulo 2 (edifícios e estabelecimentos em geral) não torna estas normas menos aplicáveis a uma caixa Multibanco operável a partir da via pública.

Basta notar que estes equipamentos estão instalados em edifícios, e que as normas não distinguem entre equipamentos operáveis a partir do interior ou do exterior do edifício.


Só nos bancos?

A dúvida seguinte é suscitada pelo uso da expressão “bancos e respectivas caixas”.

Deve depreender-se que só as caixas localizadas em agências bancárias é que estão abrangidas, ou pelo contrário devem considerar-se abrangidas todas as caixas, independentemente da sua localização?

Por exemplo, as caixas Multibanco existentes nas instalações de uma companhia de seguros, também devem ser acessíveis?

Nada indica que o legislador pretendesse limitar aos bancos essa obrigação. Deve referir-se, a este propósito, o disposto na Lei n.º 46/2006, que classifica como práticas discriminatórias “a recusa de fornecimento ou o impedimento de fruição de bens e serviços” e “o impedimento ou a limitação ao acesso e exercício normal de uma actividade económica” (cf. artigo 4.º, alíneas a) e b) da referida lei).

A expressão “bancos e respectivas caixas” pode (e deve), nesses termos, ser entendida num sentido mais abrangente, i.e., como integrando os bancos e os equipamentos através dos quais os seus serviços são prestados, independentemente de estes se encontrarem instalados no espaço físico da agência bancária ou noutros espaços físicos.

Deve entender-se, por isso, que não são apenas as caixas localizadas em agências bancárias que estão abrangidas, mas todas as caixas Multibanco instaladas em edifícios.


Que normas se aplicam?

As caixas Multibanco são consideradas “equipamentos de auto-atendimento”. As exigências aplicáveis constam da Secção 2.11 das normas técnicas do DL 163/2006.

Nos termos do n.º 2.11.1, “nos locais em que forem previstos equipamentos de auto-atendimento, pelo menos um equipamento para cada tipo de serviço” deve cumprir essas exigências.

Por outras palavras, nos locais onde houver mais de uma caixa Multibanco, o exigível é que pelo menos uma cumpra as normas.

Nenhuma dessas normas, note-se, é incompatível com a abertura da caixa Multibanco para a via pública.

Exige-se, por exemplo, que o equipamento esteja localizado junto a um percurso acessível (cf. alínea 1) do n.º 2.11.1), mas este pode, naturalmente, coincidir com a via pública.

E o mesmo se pode dizer sobre a zona de permanência (cf. alínea 2) do n.º 2.11.1).

Se num determinado edifício houver, na mesma zona, duas ou mais caixas Multibanco, e se estas estiverem distribuídas pelo interior e pelo exterior, a exigência aplica-se ao conjunto dos equipamentos disponíveis, e pode optar-se por assegurar a acessibilidade a qualquer um deles.

Se porventura o equipamento acessível se localizar no interior, deve assegurar-se que ele pode ser alcançado a partir da via pública por um percurso acessível, e deve atender-se ao cumprimento das normas aplicáveis à soleira, à porta (largura útil, zona de manobra, puxador) e a todas as partes operáveis (por exemplo, a ranhura para passar o cartão e aceder ao interior deve estar dentro da zona de alcance). E não se pode sujeitar a sua utilização a um regime horário diferente dos restantes equipamentos localizados na mesma zona."

Esta explicação é feita por Pedro Homem Gouveia no seu Blog Acessibilidade-Portugal.bolgspot.com
No entanto, e em virtude do desconhecimento geral, coloco aqui os excertos da lei referidos no artigo.
Diz assim o Decreto -lei 163/2006 no artigo 2º ( âmbito de aplicação ):

Âmbito de aplicação1—As normas técnicas sobre acessibilidades aplicam-se às instalações e respectivos espaços circundantes da administração pública central, regional e local, bem como dos institutos públicos que revistam a natureza de serviços personalizados ou de fundos públicos.

2—As normas técnicas aplicam-se também aos seguintes edifícios, estabelecimentos e equipamentos de utilização pública e via pública:
a) Passeios e outros percursos pedonais pavimentados;
b) Espaços de estacionamento marginal à via pública ou em parques de estacionamento público;
c) Equipamentos sociais de apoio a pessoas idosas e ou com deficiência, designadamente lares, residências, centros de dia, centros de convívio, centros de emprego protegido, centros de actividades ocupacionais e outros equipamentos equivalentes;
d) Centros de saúde, centros de enfermagem, centros de diagnóstico, hospitais, maternidades, clínicas, postos médicos em geral, centros de reabilitação, consultórios médicos, farmácias e estâncias termais;
e) Estabelecimentos de educação pré-escolar e de ensino básico, secundário e superior, centros de formação, residenciais e cantinas;
f) Estações ferroviárias e de metropolitano, centrais de camionagem,
7) As teclas devem ser identificadas com referênciagares marítimas e fluviais, aerogares de aeroportos e aeródromos, paragens dos transportes colectivos na via pública, postos de abastecimento de combustível e áreas de serviço;
g) Passagens de peões desniveladas, aéreas ou subterrâneas, para travessia de vias férreas, vias rápidas e auto-estradas;
h) Estações de correios, estabelecimentos de telecomunicações, bancos e respectivas caixas multibanco,companhias de seguros e estabelecimentos similares;
i) Parques de estacionamento de veículos automóveis;
j) Instalações sanitárias de acesso público
E ainda, sobre as características que devem de ter os multibancos:
Secção 2.11—Equipamentos de auto-atendimento:


2.11.1—Nos locais em que forem previstos equipamento sde auto-atendimento, pelo menos um equipamento para cada tipo de serviço deve satisfazer as seguintes condições:
1) Deve estar localizado junto a um percurso acessível;

2) Deve existir uma zona livre que permita a aproximação frontal ou lateral de acordo com o especificado na secção 4.1;

3) Se a aproximação ao equipamento de auto-atendimento for frontal, deve existir um espaço livre com uma altura do piso não inferior a 0,7 m e uma profundidade não inferior a 0,3 m;

4) Os comandos e controlos devem estar localizados a uma altura do piso compreendida entre 0,8 m e 1,2 m, e a uma distância da face frontal externa do equipamento não superior a 0,3 m;

5) Os dispositivos para inserção e retirada de produtos devem estar localizados a uma altura do piso compreendida entre 0,4 m e 1,2 m e a uma distância da face frontal externa do equipamento não superior a 0,3 m;

6) As teclas numéricas devem seguir o mesmo arranjo do teclado, com a tecla do n.o 1 no canto superior esquerdo e a tecla do n.o 5 no meio;

7) As teclas devem ser identificadas com referência táctil (exemplos: em alto-relevo ou braille)."
A lei está aqui... foi aprovada e deve ser cumprida.
Mas não é.
O meu comentário é muito simples...
Multibanco fora do banco, multibanco dentro, multibanco nos centros comerciais, nos hipermercados...enfim, dentro ou fora, continuamos, nós, os que vemos e vivemos a vida sentados, a não conseguir utilizá-los. Não têm um rebordo que permita " estacionar" a cadeira lá de baixo, por forma a estarmos virados de frente para os mesmos, e os que fazem uma tentativa têm todos o teclado demasiado alto ou as ranhuras perfeitamente inacessíveis, o que torna uma ída ao multibanco num enorme exercício de equilibrio e de bom humor, visto da última vez que tentei fazer uma operação na caixa multibanco ter dado um valente trambolhão, tendo que recorrer à boa vontade dos traseuntes que passavam naquela altura para voltar para a cadeira.
Infelizmente, como sempre, o legislador legisla, mas ninguém aplica.
Não existe vontade política para fazer aplicar o legislado...
Para quando uma fiscalização efectiva aos edificios e entidades?